Alguns bens essenciais sobem mais que o salário mínimo em Janeiro 
23.12.2010 - 07:34 Por Raquel Martins
CGTP e UGT discordaram sobre este aumento do salário mínimo
(Foto: Pedro Martinho)Em Janeiro, o salário mínimo nacional (SMN) vai aumentar de 475 para 485 euros, uma actualização de 2,1 por cento que ficará abaixo da taxa de inflação de 2,2 por cento estimada pelo Governo e abaixo dos 5,3 por cento previstos no acordo assinado em 2006.
A decisão foi tomada ontem pela ministra do Trabalho, Helena André, que garantiu que o objectivo de chegar ao 500 euros no final do ano é para manter. A diferença é que, em vez de isso acontecer logo no início do ano, como é habitual, o aumento será feito ao longo de 2011.
Esta é a primeira vez, desde que, em 2006, foi assinado o acordo para o aumento do SMN, que esta remuneração tem um aumento abaixo da inflação, o que irá condicionar o orçamento de centenas de trabalhadores que verão alguns bens essenciais, como a electricidade ou o pão, aumentarem acima da inflação. "Aquilo que saiu da reunião de concertação é que os 500 euros serão uma realidade durante o ano de 2011 e que haverá dois momentos, em Maio e Setembro, para avaliar como é que vamos repercutir os 15 euros que não são aumentados no dia 1 de Janeiro. Esse é o objectivo acordado em concertação social e é nesse sentido que o Governo legislará", frisou Helena André no final do encontro com os representantes das confederações patronais e sindicais.
A ministra do Trabalho justificou o aumento faseado do SMN com "a situação económica do país" e com as "dificuldades que algumas empresas atravessam". E garantiu que a proposta é resultado dos "pontos de vista e das propostas apresentadas por alguns parceiros sociais, nomeadamente a UGT, a CIP e a CCP, que estiveram de acordo com a conclusão do Governo".
Uma vitória, para Proença
Porém, a decisão foi tudo menos pacífica e à saída do encontro patrões e centrais sindicais fizeram leituras diferentes da decisão do Governo. O Turismo e a CGTP manifestaram-se contra, embora por razões diferentes. Os restantes parceiros tentaram justificar o seu apoio, mais ou menos explícito, com a UGT a considerar a decisão "uma vitória dos trabalhadores".
João Proença, secretário da UGT, não escondia a satisfação por ter conseguido um aumento em Janeiro, ainda que abaixo do que pretendia, e justificou o apoio à decisão do Governo. "Valeu a pena a greve geral, porque, sem ela, não haveria salário mínimo de 500 euros em 2011. É uma vitória dos trabalhadores. Ainda há pouco tempo, algumas confederações patronais diziam que 500 euros só em 2013", frisou, enquanto agitava o pré-aviso da greve geral de 24 de Novembro na mão.
Comércio e Indústria foram mais comedidas e colocaram alguns entraves ao objectivo de 500 euros, que o Governo dá como certo. A Confederação do Comércio (CCP), que tinha feito uma proposta semelhante à que acabou por ser a decisão do Governo, deu o seu aval ao aumento de 10 euros no início do ano, mas mostrou-se reticente quanto ao outro objectivo. "Não excluímos os 500 euros, mas também não assumimos qualquer compromisso", disse ao PÚBLICO o presidente, João Vieira Lopes.
António Saraiva, presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), também deu luz verde ao aumento faseado da remuneração mínima e mostrou-se optimista quanto ao aumento até aos 500 euros. Mas também deixou claro: "Não nos peçam milagres".
Em total rota de colisão com o Governo estiveram CGTP e Turismo. José Carlos Pinto Coelho, presidente da Confederação do Turismo de Portugal, sublinhou que a decisão do Governo "dá um sinal errado" à economia e que esta "não é a altura correcta" para o SMN alcançar os 500 euros.
Já Carvalho da Silva, líder da CGTP, considerou "uma vergonha" o aumento e acusou o Governo de estar ao serviço dos interesses dos patrões. "Não podemos aceitar que não se cumpram compromissos e que, no contexto de dificuldades que vivem os trabalhadores que ganham pouco, se aumente o salário mínimo em 33 cêntimos por dia".
Com este dossier encerrado, pelo menos até Maio, no início do ano prepara-se uma nova batalha entre Governo e parceiros sociais: a revisão do Código do Trabalho, com a imposição de tectos aos despedimentos. Carvalho da Silva abriu as hostes dos encontros que começam a 6 de Janeiro e deixou um alerta: o Governo está a preparar uma profunda revisão da legislação do trabalho" de forma "encapotada". A ministra desvalorizou e garante que é cedo para se falar em revisão.


