Carlos Costa concordou com renovação dos créditos às off-shores investigadas do BCP 
28.04.2010 - 07:29 Por Cristina Ferreira
A escolha de Carlos Costa para governador tem sido muito elogiada
(Carlos Lopes/arquivo)Carlos Costa, escolhido pelo Governo para liderar o Banco de Portugal (BdP), deu, em 2001 no BCP, na sua qualidade de técnico, parecer favorável à renovação de créditos das sociedades off-shores criadas para aquisição de acções próprias e que estão sob investigação das autoridades.
Costa é ainda testemunha abonatória do ex-vice-presidente do BCP Cristopher de Beck, no processo movido pelo BdP, pela CMVM e pelo Ministério Público contra a ex-administração.
A Aldwych Associates, Chelsea International, Conarch Consulting, Fieldmaz Assets, Follioval Investment, Gopi Associates, Hitop e Golden Securities são alguns dos veículos criados pelo BCP nas ilhas Caimãs e cujos créditos superiores a 200 milhões de euros foram renovados com base num parecer de Carlos Costa. A sua intervenção decorreu entre 2001 e 2002, quando era director-geral do BCP (de onde saiu em 2004) para a área internacional, com o pelouro das sociedades sediadas em paraísos fiscais. A análise favorável foi enviada à administração, que lhe deu seguimento.
O PÚBLICO não conseguiu obter um comentário sobre este assunto por parte de Carlos Costa, que em Junho irá substituir Vítor Constâncio à frente do BdP, uma escolha que está a contar com o consenso geral político e económico. Carlos Costa tem sido elogiado pelas suas competências técnicas, mas também pelo seu "bom carácter" e "seriedade".
Tudo indica que, após tomar posse no BdP, peça escusa e delegue na sua equipa todas as matérias relacionadas com as investigações ao BCP, em que a autoridade monetária nacional está ainda envolvida. Até porque é testemunha abonatória de um dos principais arguidos, o vice-presidente Cristopher de Beck. Em 2009 esteve no BdP a prestar declarações sobre esta matéria, defendendo que esta decisão de crédito seguiu um percurso normal.
Carlos Costa não teve intervenção na constituição destas off-shores (que integram o lote das 17 off-shores que estão a ser investigadas) nem na decisão inicial de lhes conceder financiamento, pois foram criadas em 1999, antes de ingressar no BCP. Apenas na renovação dos créditos, em 2001, surge o seu parecer favorável.
As autoridades suspeitam que a gestão de Jardim Gonçalves usou estes veículos para manipular a cotação do banco. No total, tinham créditos no valor de 490 milhões de euros. Em 2002, foram extintos, após a venda dos activos ao banco holandês ABN.
Entre as competências do director-geral da área internacional, funções que Carlos Costa desempenhou, está a análise dos méritos das operações de concessão e renovação de empréstimos. Antes de emitir a sua opinião favorável junto da administração do BCP, Carlos Costa ouviu a sua equipa técnica, tendo a proposta de renovação dos financiamentos às oito off-shores passado pelo crivo de cinco responsáveis do banco: os colaboradores da filial das Caimãs, Isabel Soares Carneiro e José Pinto Vicente, dois colaboradores da sucursal de Lisboa, Nazaré Dang e António Araújo, e o seu director adjunto, Gaioso Henriques. Todos deram luz verde.
Na sequência, Costa deu também parecer favorável, posição que remeteu para a administração. Filipe Pinhal e Cristopher de Beck, os dois vice-presidentes do BCP, e Castro Henriques e António Rodrigues, a quem coube a última decisão, despacharam no mesmo sentido.


