Inauguração da Plataforma de Transacções de Cortiça (PTC) foi o ponto alto da segunda Feira Internacional da Cortiçar, realizada em Coruche e que termina hoje.
Criada pela Associação de Produtores Florestais do Concelho de Coruche e Limítrofes (APCF), com o apoio técnico do Instituto Superior de Agronomia, a PTC também já é conhecida por “bolsa da cortiça” e pretende melhorar as condições de comercialização de uma matéria que representa 0, 7 % do Produto Interno Bruto e 2,2% das exportações. Os industriais mostram-se, para já, cautelosos e querem perceber primeiro o modelo de funcionamento da “bolsa”.
O ministro da Agricultura diz que está disponível para equacionar todas as formas de apoio, mas apela ao consenso entre os diversos agentes do sector.
A quebra de preços na produção e de exportações verificada em 2009 é a grande preocupação num sector que ocupa cerca de 790 mil hectares, sobretudo do Alentejo e Ribatejo, e que, ainda assim, exportou 698 milhões de euros no ano passado. António Rios Amorim, presidente do Grupo Amorim e da Associação Portuguesa de Cortiça (Apcor), disse, ao PÚBLICO, que “a quebra das exportações em 2009 foi de 15%” e que o grande problema “situou-se nos produtos que mais valorizam a cortiça. A quebra unitária foi menor, a quebra em valor é que foi superior”, referiu, explicando que as reduções se verificaram sobretudo ao nível da utilização de rolhas nos vinhos mais caros.
No primeiro trimestre deste ano, a evolução é positiva e, segundo António Amorim, há “alguns sinais de recuperação”. O presidente da Apcor reconhece que 2009 “foi particularmente penalizador para o sector da cortiça”, mas espera que 2010 “venha a mostrar, como tem vindo a acontecer, sinais de recuperação”.
Governo optimista
O mesmo optimismo revela o ministro da Agricultura, que disse, ao PÚBLICO, que o Estado tem procurado ajudar e que, segundo os responsáveis do sector “já há uma inflexão de comportamentos dos grandes compradores internacionais, que estão a olhar novamente para a cortiça e para a rolha”, salientou o governante, frisando que também é preciso alargar a aposta na diversificação de produtos fabricados com base na cortiça e que, através de fundos comunitários, o Estado está a apoiar a maior campanha (21 milhões de euros) de sempre de promoção da cortiça nos mercados internacionais.
Preocupados estão os produtores florestais que, nalguns casos, viram o preço da cortiça baixar até 50% em 2009. António Gonçalves Ferreira, director da Associação de Produtores do Concelho de Coruche e Limítrofes – o município de Coruche é o maior produtor mundial de cortiça e a associação representa cerca de 300 produtores e uma área 170 mil hectares – sublinha que houve “uma quebra grande de preços”, que se reflectiu de forma diferenciada e atingiu sobretudo a cortiça destinada ao fabrico de aglomerados para construção.
Aqui há casos de redução de 50% que têm causado sérios problemas aos produtores e muitas dificuldades de escoamento. “As pessoas tinham uma expectativa, fizeram investimentos num patamar de preços e o patamar neste momento é outro. Há algumas franjas de povoamento em que a rentabilidade é muito baixa”, sustenta, frisando que o montado de sobro é uma área em que as plantações só dão retorno num horizonte de 25 a 30 anos. “É preciso que a actividade seja rentável hoje para que as pessoas possam investir”, prossegue, defendendo que o Estado deve ser sobretudo um facilitador e promover parcerias e legislação que ajude os produtores.
No que diz respeito à indústria, António Ferreira admite que tem que ter por objectivo o lucro e que está envolvida num contexto de mercado internacional, mas acha que também deve agir de um modo eticamente justo. “A indústria tem a ajudá-la legislação de protecção do montado que obriga a que os produtores mantenham os seus montados. Também tem que ter algumas preocupações éticas de que haja justiça na transmissão de valor até à produção, para que a actividade seja rentável”, concluiu.
Bolsa todas as semanas
A Plataforma de Transacções de Cortiça vai funcionar todas as quartas-feiras no Observatório do Sobreiro e da Cortiça. Segundo António Ferreira estará articulada com um projecto do Instituto Superior de Agronomia que permitirá fazer amostragens e avaliações da cortiça de cada produtor de modo a que seja depois mais fácil concretizar os negócios. António Amorim recorda que o Grupo Amorim tem o seu próprio modelo de avaliação fruto de muitos anos de experiência. “Não tive ainda tempo para aprofundar o conhecimento da plataforma, qualquer opinião neste momento seria prematura. O Grupo Amorim tem os seus próprios métodos e modelos de avaliação, que são aqueles que defendemos e que têm que ser afinados e articulados com aquilo que a associação está a fazer”, referiu.



