Depois do FMI, coreanos ficaram mais competitivos mas também mais desiguais 
23.05.2011 - 07:18 Por Paulo Miguel Madeira
Hyundai, um dos grandes grupos económicos sul-coreanos
(Truth Leem/Reuters)No auge da crise asiática, a Coreia do Sul foi forçada a pedir dinheiro ao FMI e a submeter-se a um programa de ajustamento. A retoma foi rápida, mas as mudanças não foram todas positivas.
Da Coreia do Sul vem um exemplo a olhar por Portugal com atenção: na sequência da crise asiática do final da década de 1990, o FMI impôs ao país um pacote de ajustamento estrutural como contrapartida de um financiamento de 54 mil milhões de dólares, quando a Coreia tinha um nível de desenvolvimento idêntico ao de Portugal, mas um mercado interno de quase 50 milhões de pessoas. O resultado foi positivo do ponto de vista macroeconómico, mas criou um país com maiores desigualdades sociais, conforme apontou ao PÚBLICO Choong Tong Ahn, economista sul-coreano que é também provedor do Investimento Externo no seu país.
No final de uma década com crescimentos do PIB sempre acima de cinco por cento, a Coreia do Sul foi atingida pela crise financeira asiática, que se declarou na Tailândia no Verão de 1997 e alastrou a vários países da região. Mas como é que um país com aquelas taxas de crescimento e uma balança de transacções externas apenas levemente negativa (o seu maior défice foi de quatro por cento do PIB em 1996) precisa da ajuda do FMI? "A crise espalhou-se até à Coreia do Sul e os credores deixaram de emprestar ao país, apesar de os seus indicadores serem sólidos", explica Choong Tong Ahn, numa conversa com o PÚBLICO durante a sua estada em Lisboa para o Fórum Coreia-Portugal, que decorreu na quarta-feira em Lisboa, para assinalar o 50.º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois Estados.
Com a necessidade de recurso ao FMI, a Coreia do Sul teve de se submeter ao "programa de ajustamento" da praxe. Deu-se então uma mudança profunda no seu modelo de desenvolvimento. Nos anos que precederam o empréstimo, o país tinha assente o crescimento da economia no investimento interno, feito pelas suas próprias empresas. Foi a época dourada dos grandes conglomerados, conhecidos por "chaebols". Estes grupos necessitavam no entanto de recorrer a financiamentos maciços para a sua expansão, que eram assegurados através do exterior. E foi este o calcanhar de Aquiles durante a crise asiática do final do século passado: deixou de haver financiamento internacional e havia empréstimos a vencer.
Com a condicionalidade imposta pelo FMI, o país teve de se abrir à liberalização do investimento estrangeiro, e começou um processo de inserção intensa nas rotas da globalização. A Coreia foi "forçada a mudar para uma atracção proactiva de investimento estrangeiro, conta Choong Yong Ahn.
Em cumprimento desta determinação, o país empreendeu um conjunto de reformas. A generalidade das empresas públicas foi privatizada. Quais as excepções? "Electricidade, caminhos-de-ferro, água para consumo público e um banco semipúblico, o Korean Development Bank", responde Ahn. Houve também um reforço da liberalização do mercado de trabalho, dando às empresas grande liberdade para despedir em função da conjuntura. Foi exigido às empresas que reduzissem o seu nível de endividamento, cujo valor actualmente é inferior ao do capital. Esta situação obrigou muitos grupos a reestruturarem-se, e alguns desfizeram-se de linhas de negócios que se tinham expandido justamente à custa de financiamento externo.
O investimento externo ficou isento de impostos sobre o rendimento durante os primeiros cinco anos e de tarifas alfandegárias sobre tudo o que as empresas assim criadas importam para o processo de produção. E deste modo os coreanos "entraram nas cadeias globais de fornecimento". E foi para ajudar a este processo que o país criou o Gabinete do Provedor do Investimento estrangeiro que Ahn dirige.
O processo foi doloroso, mas a recuperação rápida. Em 1997, ano que terminou com a Coreia a assinar o seu acordo com o FMI, o PIB cresceu 5,8 por cento; no ano seguinte, a recessão foi de 5,7 por cento, mas em 1999 houve um crescimento de 10,7 por cento.
Críticas à actuação do FMI? O economista realça que "antes e depois da crise internacional os fundamentais da Coreia eram muito bons e mesmo assim houve falta de liquidez do exterior". Considera que o programa foi "demasiado severo" e que podia ter sido mais flexível. Além disso, "polarizou os rendimento", uma forma de dizer que "os ricos ficaram mais ricos e os pobres mais pobres", sem que esse efeito se tenha revertido desde então. O país tem "uma estrutura dualista".
Choong Yong Ahn critica ainda o FMI por ter aplicado na Coreia do Sul "o mesmo pacote que no México e na América do Sul", sem se adaptar a cada realidade.


