Draghi diz que é prematuro discutir perdão da dívida grega pelo BCE 
09.02.2012 - 15:16 Por Ana Rita Faria
Mario Draghi mostrou-se ambíguo quanto ao perdão da dívida grega
(Daniel Roland/AFP)O BCE esquivou-se hoje a confirmar a participação do banco central na reestruturação da dívida grega, mas deixou no ar a possibilidade de distribuir os lucros com os títulos helénicos aos países membros e de estes devolverem o dinheiro à Grécia.
Depois de ter confirmado em primeira mão que os partidos gregos chegaram a um acordo sobre o novo resgate ao país, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, não esclareceu se a autoridade monetária irá ou não participar no esforço de redução da dívida grega, tal como tem sido noticiado.
“Toda a gente fala do que o BCE pode fazer ou não pode fazer e do que devia fazer, mas o BCE, até agora, não disse nada”, afirmou Mario Draghi, para depois acrescentar: “A única coisa que posso dizer neste momento é o mesmo: nada”.
Ainda assim, o presidente do BCE deixou dúvidas sobre as intenções reais do banco central ao dizer que não quer comentar sobre a dívida grega detida pelo BCE até “ver o que sai hoje da reunião do Eurogrupo”. “Seria altamente prematuro dizer algo hoje”, concluiu.
Mario Draghi foi hoje bombardeado de perguntas sobre este assunto durante a conferência de imprensa que se seguiu à reunião mensal do conselho de governadores, onde ficou decidido manter inalteradas as taxas de juro no mínimo histórico de 1%.
O presidente do BCE começou por dizer que não podia dizer nada sobre “a forma como serão tratadas as obrigações gregas que temos em carteira”, mas, mais à frente, acabou por dizer que, até agora, não tem razões para mudar o compromisso de que irá manter esses títulos até à maturidade.
Nos últimos dias, a imprensa internacional tem noticiado a possibilidade de o BCE participar na reestruturação da dívida grega, de uma forma que não envolveria perdas contabilísticas para o banco. Neste momento, o banco deterá cerca de 42 mil milhões de euros em dívida grega, mas, como as comprou numa altura em que os títulos estavam muito desvalorizados, obteve um grande desconto. É desse valor adicional (ou seja, os lucros que o BCE faria se mantivesse a dívida até à maturidade) que o BCE poderá estar disposto a abdicar. Os números falados são 11 mil milhões.
Este perdão da dívida pelo BCE obrigaria a uma manobra contabilística, através da qual o BCE venderia ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) os títulos gregos, que os devolveria à Grécia. O Governo grego pagaria depois ao FEEF esses títulos preço preço a que o fundo os comprou do BCE.
Questionado pelos jornalistas, Mario Draghi parece ter descartado esta ideia, ao dizer que “o FEEF é os Governos” e que se o BCE der dinheiro aos Governos está a fazer “financiamento monetário”, algo a que está proibido pelos tratados europeus. No entanto, salientou que se o BCE distribuir os lucros feitos com a dívida grega aos países membros não se trata de financiamento monetário. Draghi refere-se aqui à capital key, ou seja, ao peso que cada país accionista do BCE tem no capital do banco central. Ao distribuir os lucros aos seus membros, estes poderiam decidir se transfeririam ou não esses lucros para a Grécia.
Mario Draghi foi ainda questionado sobre se, caso o BCE aceite “perdoar” parte da dívida grega, isso pode ser aplicado a outros países dos quais o banco tem dívida, como Portugal. Draghi respondeu apenas que a Grécia é um caso único, “em tudo”, e que a autoridade monetária não quer repetir nenhuma experiência feita na Grécia com outro país.


