"Este é o momento para investir", diz o presidente da DouroAzul SGPS 
22.03.2010 - 07:40 Por Cristina Ferreira
Mário Ferreira
(NFACTOS/Jorge Miguel Gonçalves)Aos 42 anos, Mário Ferreira, presidente da DouroAzul SGPS, especializada em cruzeiros fluviais e no turismo orbital, prepara-se para abraçar dois desafios: viajar até ao espaço e, até Maio, cotar a empresa na bolsa. Será a primeira operação que a Euronext Lisbon realiza em dois anos e é já considerada um potencial case study. Os fundos recolhidos, de 40 milhões de euros, sustentarão o arranque da actividade no rio Amazonas. Em simultâneo continua a desenvolver a venda de viagens ao espaço e espera que a curto prazo o seu custo baixe para 37 mil euros.
PÚBLICO - Numa entrevista recente disse que a crise não prejudicou a Douro Azul...
Mário Ferreira - Se pensarmos que a crise começou em 2007, podemos dizer que navegámos contra a corrente. O ano de 2008 foi fantástico e o de 2009 ainda foi melhor. As contas vão ser apresentadas a muito curto prazo.
Em 2008 a facturação foi de 12,37 milhões de euros. Se as estimativas de crescimento se cumprirem, em 2009 o volume de negócios vai ultrapassar 13,2 milhões de euros?
Eram previsões, mas se estou a dizer que foi melhor que 2008 pode deduzir que sim.
A componente estrangeira continua a ser maioritária entre os clientes. Na fasquia dos 70 por cento?
Sim. Mas houve um shifting entre os clientes estrangeiros. Como trabalhamos por antecipação, preparámo-nos. Neste momento estou a vender 2012 para a frente. E também antecipámos que iríamos ter um problema concreto com o mercado inglês, não pela crise, porque em termos de exportação até cresceu quatro por cento. O que aconteceu foi que a libra desvalorizou e os ingleses começaram a procurar destinos patrocinados e subsidiados por governos que cobriram a diferença da libra para as moedas locais. Como Portugal, e bem, não o fez, houve um shifting dessa clientela.
Para que países?
Para vários. O mais dramático em termos europeus, e que está a provocar mais reacções, foi a Turquia. A Turquia acompanhou com subsídios grandes operadores.
O Governo português deveria ter tomado idêntica decisão?
Não. A política que adoptou não foi má. O que se fez foi o que tenho recomendado nas reuniões em que tenho estado, inclusive onde discutimos a questão da promoção estratégica do País, com o secretário de Estado. Existem economias como a holandesa, a israelita e a suíça, menos afectadas quer a nível cambial, quer a nível de crise. E então falamos com os operadores ingleses que já tinham pré comprado as viagens para 2009. Não nos interessava que as tivessem comprado e que o barco andasse vazio, porque depois temos um conjunto de serviços que vendemos, o que majora a facturação. E fomos tal como no 11 de Setembro, o que solidificou a relação com o mercado americano, fomos pró-activos. Convidei o cliente inglês com quem trabalhamos desde 1996, para vir cá em Janeiro e disse-lhe que se calhar seria prudente que libertasse parte do pré-comprado, para que eu procurasse colocar junto de outros operadores.
Foi o que aconteceu?
Foi. E a fatia de 50 por cento de clientes estrangeiros que normalmente provinham do mercado inglês foi reduzida para 33 por cento. A percentagem de clientes americanos manteve-se nos 33 por cento e a restante parte está repartida por países com grande potencial de crescimento. A Suíça duplicou de quatro por cento para 8,4 por cento, o mesmo aconteceu com a Holanda, a Bélgica, a Noruega e a Suécia. E tivemos duas grandes surpresas em 2009 que vieram da Austrália e de Israel. Turistas que vieram expressamente a Portugal ver o Douro.
Em 2010 está optimista?
Já está tudo praticamente feito. E em 2011 também. E vai haver uma nova embarcação que está encomendada aos estaleiros da Martifer em Aveiro, um investimento de 12 milhões de euros. E já está praticamente vendido a um grande operador americano por um período de cinco anos, até 2015. Um contrato de mais de 16 milhões de euros. E existem outras negociações em curso
Qual o plano de negócios para 2015?
Está assente naquilo que consideramos ser a procura para o produto Douro na vertente nacional para cruzeiros diários e no segmento navios hotéis. E dentro do plano, temos a internacionalização de serviços e de tecnologia portuguesa nesta área que é o nosso know-how reconhecido a nível mundial.
Há o projecto de internacionalização de ida para o Brasil?
Queremos ir para a Amazónia com o nosso know How e modelo de negócios já afirmados no Douro, envolvendo a construção de um protótipo de navio que andei a desenvolver durante cinco anos com técnicos, e que eu gostaria que fosse construído em Portugal. E que nos permitiria começar a fazer cruzeiros em navios hotéis na Amazónia entre Manaus e Iquitos, no Peru, a parte do Amazonas profundo, onde não existe nenhum operador a fazer esta carreira regular de sete dias [cada navio empregará 90 tripulantes, entre brasileiros, peruanos e alguns portugueses].
Para que o plano avance é preciso cotar a DA em Bolsa?
Sim, para se poder capitalizar por via aumento de capital, e daí poder utilizar fundos para construir novas unidades e poder desenvolver o negócio.
A operação Amazónia vai estar pronta quando?
O primeiro barco deverá estar operacional em 2012. E nos jogos da copa do mundo de 2014, teremos dois barcos, e nos Jogos Olímpicos de 2016, teremos três.
Com a ida para a bolsa espera captar fundos de 40 milhões de euros?
Não posso confirmar. O nosso plano de negócios exige umas dezenas de milhões de euros. E foram estudadas diversas formas de financiamento. Na vertente nacional temos recorrido a capital próprio, uma parte à banca, que está atractivo pelas novas condições que foram dadas à banca pelo protocolo com o Estado, e ao QREN, através do SI Inovação. Depois, para a internacionalização, tivemos de pensar em formas alternativas de financiamento: pensámos na bolsa, mas também em parceiros estratégicos na área turísticas, em hedge funds e em venture capital. Existiam oportunidades em todos eles.
O objectivo é dispersar o capital até 40 por cento?
Não posso revelar. Apenas posso dizer que queremos dispersar um lote de acções que seja suficiente para cobrir o capital necessário. Mas nunca perdendo a maioria da empresa. Não quero vender a empresa, quero que ela continue a ter uma cara, para o sucesso ou para o insucesso. Quero que tenha um líder. A mim custa-me investir em empresas onde não veja um rosto, um líder. O accionista que controla até pode ter 20 ou 30 por cento, mas tem que haver um rosto.
Essa sua visão vai ao arrepio das novas orientações do código da boa governação.
Eu sei. Mas é a minha visão de empreendedor. Devemos estar no mercado e ter o mercado a colaborar mas as empresas têm que ter um rosto.
Foi uma lição que tirou desta crise financeira que revelou que empresas geridas por gestores profissionais assumiram riscos para além do admissível?
Já pensava assim antes da crise. E talvez por isso a DA tenha passado por esta crise de uma forma mais facilitada e até beneficiámos dela.
Em que medida?
Com o baixar das taxas de juro, com a possibilidade de podermos negociar divida bancária a melhores preços. E quando digo que uma empresa deve ter um rosto, não quero dizer que o accionista deva manter a maioria do capital ou ter a totalidade. Mas tem que se assumir como líder para o bem e para o mal.
O que é que o motivou a pedir a admissão à bolsa?
Eu já tinha o bichinho, criado por amigos e pessoas que me acompanham na gestão das empresas, e que prezo muito. E também pelo facto de ter sido convidado para um encontro promovido pela Euronext de Lisboa, que me estimulou. Embora esteja num processo de entrada em bolsa não descartei as outras alternativas.
Este é o momento indicado para dispersar capital?
O momento é importante e determina o sucesso, ou não, dos projectos. Há projectos adiantados no tempo. Mas este é o momento para investir e para puxar pela indústria nacional em termos de construção naval que é muito boa e está a passar por uma situação muito difícil.
Conta com apoios do Estado?
Para este navio que está a ser construído candidatamo-nos ao SI Inovação, pois o projecto foi declarado de interesse para o turismo. Para os empresários que queiram investir neste momento de menos inovação da economia, o pacote de apoios que existe oferece boas condições
Que investidores gostaria de ter como parceiros?
Uma mistura equilibrada entre fundos e particulares. E seria bom ter parceiros que queiram contribuir de forma pró-activa para o crescimento da empresa, que agora é pequena, mas que tem ambição controlada e muito espaço para poder crescer, pois o mercado é jovem. O negócio dos cruzeiros de rio ou costeiros tem 15 anos, enquanto o de mar tem mais de 100 anos e envolve 36 mil milhões de dólares. Foi um negócio que cresceu muito, mas que vai começar a abrandar. E os cruzeiros de rio vão substituir a clientela que gosta de fazer cruzeiros.
A entrada no início neste mercado ainda jovem é um trunfo da DA?
Entrar num negócio jovem é entrar numa mina e estar no início do filão e é assim que me sinto: estou a entrar numa mina e não estou no final, estou no início e há ainda muito por desenvolver, por explorar e por descobrir. Mas é preciso encontrar alguém que apoie e acredite no crescimento de uma jovem empresa.
Há quem defenda que estamos a entrar numa fase de poupança, que leva ao receio de investir na bolsa. Não teme os riscos?
É exactamente por esse sentimento que acho que é altura da DA entrar na Bolsa. Não somos uma empresa de lucros rápidos, não dá lugar a especulações. E uma empresa de médio e longo prazo em termos de investimento, é uma empresa cujos bens são materiais e o seu valor não se esfuma no ar. Construímos algo, e esse algo presta um serviço e cria riqueza que poderá ser explorado no Douro, na Amazónia na China, onde for. Tem essa versatilidade. Penso que é o momento é ideal par estar na bolsa, pois as pessoas tornaram-se mais conservadoras, estão a poupar e ao mesmo tempo estão mais avessas ao risco. E nesse sentido somos uma oportunidade. Não existe mais nenhuma empresa do turismo na bolsa. Fala-se muito de turismo e que o futuro do nosso país passa pelo turismo e é caricato que não haja nenhuma empresa de turismo cotada na bolsa. Espero que a DA tenha sucesso, mas também que abra uma porta para que se criar um novo nicho.
O Governo definiu o turismo como um dos pilares de desenvolvimento. Mas não pode ser o único?
Não. Em termos macro económicos o sector do mar, como defende o prof. Ernâni Lopes, é fundamental. Nós já vivemos do mar e andamos a dar subsídios para o abate de barcos, destruindo toda a nossa frota pesqueira. Já perdemos muita gente que percebia daquela arte, e que não a passou aos mais jovens. Não modernizámos a frota, não construímos navios da Marinha Mercante nem de guerra para podermos controlar a nossa zona de mar, uma das maiores do mundo. Como não tínhamos Marinha de Guerra, os pescadores que auto policiavam o seu jardim. Não tendo nem uma, nem outra, ficamos abertos à pirataria de pesqueiros internacionais que roubam o que querem.
Aconselharia o governo a repensar a política das pescas?
Seria muito importante. Pois se temos tanto mar porque é que havemos de dar o pescado aos outros, e não seguir a tradição que tínhamos. Digo isto porque tive de reconverter, dezenas de marinheiros e de mestres da pesca, especialmente da aforada de Matosinhos, de Aveiro e da Póvoa do Varzim, e da pesca do bacalhau da Nazaré. Tive de os mandar para Lisboa para obterem a licença, porque eram lobos-do-mar que andavam em Moçambique na pesca do camarão, na pesca do bacalhau no Canada, alguns no velho Crioulo, no meio dos icebergs. Agora trabalham na vertente turística. E depois de os convertermos na parte náutica e de lhes mudar a carta, a parte mais difícil foi habituá-los a estar com pessoas pois eles andam isolados. E vê-se naquilo que dizem, no desgosto que têm por não poderem andar no mar alto à pesca.
O mar é um sector potencialmente gerador de emprego e de riqueza. Nos deixamos que nos roubam o peixe e ainda tiramos dinheiro do país para o ir comprar lá fora. Não entendo.
Daqui a dez anos onde gostaria que a sua empresa estivesse reposicionada?
Gostaria de diversificar em termos geográficos o mais possível.
Porque é que abandonaram a operação algarvia?
Transferimos o barco para o Douro, mas não está fechada até que sejam concluídas as obras prometidas em 2004, e já aprovadas, destinadas a permitir a navegabilidade até Mértola. O que é fácil. Só falta fazer uma eclusa/comporta de três metros que permite criar um espelho de água até Mértola, logo a seguir ao Pomeirão. Os estudos ambientais estão feitos. Na altura os arqueólogos, e bem, chumbaram a solução inicial e optaram por uma que permite resolver dois problemas. Uma é a navegabilidade, porque o porto e o cais de Mértola são um elefante branco, e o porto de Mértola é um porto de mar. Era o porto em que os romanos subiam e depois de Mértola iam para Lisboa. Era a auto-estrada dos romanos e há imensas barcas afundadas e os arqueólogos tinham medo que as dragagens as destruíssem. A eclusa não estraga o que está em baixo e ao mesmo tempo criava a maior reserva de água fresca logo ao lado do Algarve que tem problemas de água no Verão. Nesse caso a água salgada não subia, como sobe hoje, 90 quilómetros até Mértola, quando está sob influência das marés.
Há uma grande discussão à volta das grandes obras públicas. O que é que pensa dos grandes investimentos que estão projectados?
Em primeiro lugar é preciso investimento. A nossa economia é tão pequena que qualquer coisa a afecta. Lembre-se do que aconteceu com a Expo 98. A economia bombava, toda a gente facturava, Eu precisava de um carpinteiro, de um electricista no Porto e não havia, estavam todos em Lisboa. E quando regressaram compraram novas casas. Os grandes projectos, efectivamente, fazem falta, se forem numa área em que mão-de-obra e a tecnologia sejam portuguesas, e que o cheque não vá depois para o estrangeiro.
O que acontece com o TGV Lisboa Madrid?
Exactamente. Eu não estou a dizer que o TGV não é importante, mas pessoalmente acho que já é arcaico. Desde que andei no comboio magnético na China, em Xangai, nem percebo para que é que se vai fazer o TGV. O que era inovador era fazer uma linha de comboios magnéticos entre Vigo e o Algarve, e desenvolvíamos o projecto com os chineses. Isso é que era uma visão futurista. Por que razão é que os chineses hão-de ir buscar tecnologia à Alemanha se temos universidades para isso e construíamos cá o comboio.
Os investimentos devem ser pensados olhando à componente nacional, sejam eles de proximidade ou não?
Têm que ter em conta o que é que fica no país, para que aquele efeito da Expo 98 pudesse voltar a acontecer. Não era uma cura, mas era uma injecção de adrenalina para a economia. E, no entretanto, o mundo vai melhorando, e as exportações também começam a aumentar. Neste momento as exportações estão muito baixas e se não fosse o que está a acontecer com Angola, que ainda vai aguentando alguma coisita, o País estaria a sofrer muito mais. Não era uma cura, mas daria uma injecção de adrenalina que dava oportunidade a que o mundo recuperasse, e vai recuperar muito mais depressa do que Portugal, e já estivéssemos em condições de endireitar.
As PME portuguesas têm-se queixado muito das dificuldades na obtenção de crédito bancário. Também sentiu?
Muito sinceramente devo dizer que no caso da minha PME, não. No pico da crise bancária consegui um grande financiamento bancário a taxas que acho justas, embora não as ache baratas. E fui apoiado num momento certo, quando precisava e quando pedi. E foram dois bancos portugueses, o BES e o BCP.
“Entre 100 a 200 mil pessoas irão viajar todos anos pelo espaço”
Como é que está o negócio espacial?
Temos a Caminho das Estrelas, que faz parte da DA SGPS, que vai ser cotada em bolsa, e esse guarda e chuva tem também a Helitours. A Caminho das Estrelas foi a segunda empresa especializada na comercialização de produtos ligados ao espaço a ser criada em todo o mundo. Logo no primeiro ano vendeu quatro bilhetes para viajar ao espaço.
A quem?
São dois miúdos lá do norte, mas os outros dois não. Até a amostra revela que o interesse é muito abrangente. Os quatro clientes têm idades que vão desde os 25 anos, homem ou mulher, até aos 70 anos, completados já este ano. E são pessoas do sul e do norte do País
A empresa assenta em quatro pilares: viagens sub orbitais com a exclusividade da Virgin Galactica, que foi o mote de arranque desta empresa, que no futuro vai trazer bastantes frutos. Os outros três produtos envolvem um contrato para visitas ao Kennedy space center, um contrato com uma empresa americana de voos de gravidade zero, e uma terceira vertente de venda de brinquedos ligados ao espaço.
Os voos de gravidade zero só são realizados em três locais no mundo: na Rússia, nos treinos aos cosmonautas, em França, na agência espacial europeia, muito direccionada para experiências científicas com universidades. E um terceiro local, nos EUA, criado propositadamente para fins comerciais e que teve grande impacto, quando foi gravado o Apollo 13 com Tom Hanks. As filmagens foram realizadas num avião que cria 15 vezes a ausência de gravidade, e onde eu tenho treinado. Eles também dão treinos para astronautas da NASA.
Entretanto conheceu Richard Bronson?
Sim e foi ele que inaugurou a sede da CE, no Porto, que é uma nave espacial, que serve de modelo e de treino a muitos agentes especializados em viagens espaciais e que agora abriram em todo o mundo
Qual é o futuro do negócio orbital?
O futuro passa por uma venda massificada de viagens ao espaço, e que se vai tornar moda. Quem não for ao espaço não viajou.
É preciso ter muito dinheiro?
Não, porque o preço vai baixar muito. Está inicialmente nos 200 mil dólares, mas eu tenho estudos de benchmark feitos pela Virgin, e outros estudos de mercado muito interessantes, que prevêem é que nos próximos anos surjam mais três ou quatro empresas a fazer as viagens pelo preço o vai estabilizar nos 50 mil dólares (37 mil euros). Anualmente em todo o mundo serão transportadas entre 100 a 200 mil passageiros. Espero mesmo que daqui a dez anos já esteja a funcionar o primeiro resort orbital, um investimento que já foi feito. Estamos a negociar também a exclusividade para esse negócio.
Neste momento a primeira e a segunda fase do resort já foram concluídas e já existe um resort orbital experimental a transmitir imagens em directo. E a cápsula está lá a fazer testes, a medir temperaturas, e micro meteoritos...Mas vai ser espectacular vender quatro dias no espaço e por dia poder ver-se 16 a 17 pores e nasceres do sol.
Vai ser um dos viajantes ao espaço. As naves comerciais já estão em fase de testes?
As duas naves, a mãe e a mais pequena estão construídas [em Los Angeles, no deserto do Mojave] mas ainda não arrancaram por que como são os primeiros modelos têm que ser certificados pelos EUA e o processo é demorado. Mas nenhum dos fundadores, grupo ao qual pertenço (sou o único português) está com pressa. Começámos 100 fundadores e hoje somos 86. Alguns tiveram problemas de saúde, outros não passaram os testes médicos e cinco foram vítimas da crise financeira, em que o Bronson lhes devolveu os 200 mil dólares. Três vítimas do Lehman Brothers, e dois do Madoff.
Falou-se na possibilidade de se construir uma base orbital em Portugal. Isso foi um fait-diver?
Não partiu de mim e não faz muito sentido. Já estão a ser construídas duas bases, uma na Escócia e outra na Suécia.
Considera-se um excêntrico, pouco convencional?
Em, Portugal os empresários são muito convencionais. Eu não tenho medo da exposição mediática
E gosta dessa exposição?
Não é gostar. Cheguei à conclusão de que se não abrisse a porta a essa exposição mediática nunca conseguia colocar o Douro no mapa. Obviamente que é preciso saber lidar com isso. Agora também não tenho medo de assumir riscos e gosto desafios. E se calhar é por isso que talvez me considerem excêntrico. Mas faço o que gosto. Quando há seis meses, por convite do Broson, aceitei correr a maratona de Londres, de 42 quilómetros, pesava 100 quilos. Ao grupo de amigos que ele convidou, chamou a “missão impossível”. Tive entretanto que perder peso.
“Vou estudar até ao fim”
Quando regressou a Portugal, em 1992, tinha 25 anos. Qual era o seu objectivo
Não tinha necessidades, tinha um apartamento no Porto e um carro na garagem e tinha poupado todo o dinheiro. Tinha o trabalho perfeito, trabalhava num barco de cruzeiro que viajava à volta do mundo, sempre com bom tempo, ganhava bem, tinha roupa e cama lavada, não pagava impostos. Era um mundo irreal. Vim montar um restaurante.
As coisas não lhe correram mal, mas nem sempre um empreendedor é um bom gestor?
Há uma certa verdade nisso. Eu podia ter contribuído para um lado ou para o outro. Para ser empreendedor e um mau gestor, ou para ser empreendedor e um bom gestor. Felizmente foi para a segunda. Mas foi para a segunda, porque a certa altura eu compreendi que era um empreendedor mas não tinha as capacidades suficientes para se um bom gestor. Comecei na primeira fase por me rodear de pessoas, uma delas foi o dr. Alves Monteiro, que podiam ajudar-me e a contribuir para eu gerir melhor. E aprendi com eles.
Foi por isso que começou com um pequeno negócio?
Não, foi porque não tinha para investir mais. Mas acho que se deve começar debaixo para cima. Depois tirei um curso em Barcelona que ajudou ao meu crescimento como Gestor. E este ano estou a tirar uma licenciatura de gestão de empresas. Espero estudar até ao fim. Já tirei um curso de pilotos de piloto de helicópteros.
Quando saiu de Portugal tinha 16 anos e apenas o 11 ano de escolaridade. Hoje aconselharia os seus filhos a fazer o mesmo?
É uma pergunta difícil. Quando deixei de estudar foi contra a vontade do meu pai. Fui logo trabalhar. Essa é das poucas perguntas para que não tenho resposta. Hoje os miúdos saem de casa aos 40 anos. E quando olho para a minha filha que tem 16 anos, a idade com que sai de casa, é que percebo que ela não tem nada a ver com aquilo que eu era, não tem a maturidade. A culpa é da sociedade e dos pais que os superprotegem. O que era antes verdade já não é. Mais importante é que se tenha bom fundamento, boa educação, boas bases, que se saiba respeitar os outros, que se tenha princípios. Que não se tente crescer na vida para ultrapassar os outros e que haja abertura mental para perceber que se existir alguma área que não está a ser bem trabalhada, ou em relação à qual não temos os conhecimentos suficientes, que se tenha a humildade de o reconhecer. É preciso rodearmo-nos de pessoas capazes de preencher as nossas faltas. E temos que estudar até ao fim.


