Estudo alternativo garante que a terceira travessia do Tejo não é justificável 
17.09.2010 - 09:26 Por Carlos Cipriano
Gare do Oriente é ponto fulcral do projecto da alta velocidade
(Pedro Cunha/ arquivo)A ideia é muito simples: da gare do Oriente ao futuro aeroporto de Alcochete é mais barato sair para norte pelo corredor da actual linha férrea até Alhandra e atravessar aí o rio, continuando-se depois pelo perímetro da Reserva Natural do Estuário do Tejo até à aerogare.
A ideia é muito simples: da gare do Oriente ao futuro aeroporto de Alcochete é mais barato sair para norte pelo corredor da actual linha férrea até Alhandra e atravessar aí o rio, continuando-se depois pelo perímetro da Reserva Natural do Estuário do Tejo até à aerogare. São 50 quilómetros, enquanto o traçado previsto pelo Governo, através da terceira travessia do Tejo (TTT), Barreiro e Poceirão, é de 55 quilómetros. Pelo lado norte, a linha de alta velocidade custa à volta de 450 milhões euros; pelo lado sul, são 2000 milhões de euros.
António Martins Mourão, ex-comandante da Marinha Mercante, é um batalhador solitário. Diz que realizou este estudo com um economista e um engenheiro civil (que não se querem identificar porque trabalham para grandes empresas) e que está cansado de bater a várias portas para tentar provar que o país está à beira de cometer um erro tremendo ao fazer passar o TGV por uma nova ponte sobre o Tejo, quando há uma alternativa que é mais curta e cinco vezes mais barata.
Mas se isto é tão óbvio, por que insiste o Governo num projecto tão caro? "Porque interessa a todos os partidos: ao PSD porque tem o Ferreira do Amaral na Lusoponte (e quaisquer pontes que se façam a jusante e a montante da Vasco da Gama resultam em ganhos para esta empresa); ao PS porque assim dá empreitadas à Mota Engil e a outras empresas do regime; e aos partidos de esquerda porque os terrenos no Barreiro e na margem sul vão valorizar-se imenso."
Para Martins Mourão, o traçado pela margem norte até Alhandra e pelo perímetro da Reserva Natural do Estuário do Tejo poderá custar 665 milhões de euros, mas como a Rave já tem previsto construir infra-estrutura de alta velocidade entre o Oriente e Alverca (integrada na linha Lisboa-Porto), basta considerar o percurso Alverca/Alcochete, que não custará mais de 450 milhões. Ora, só a TTT custa 1700 milhões de euros.
Esta solução, diz, responde ao serviço ferroviário entre Lisboa e o aeroporto e encaixa perfeitamente na linha Lisboa-Madrid, com a vantagem de o aeroporto ficar melhor servido, nele parando também os comboios vindos de Espanha e Évora. Muito melhor, conclui, do que a proposta da Rave, a ponte em Alhandra e um traçado pelo perímetro da Reserva Natural do Tejo custam 450 milhões, contra os 1700 milhões da TTT, que prevê construir um ramal do Poceirão ao aeroporto, obrigando os passageiros que vêm de leste a fazer um transbordo.
Contactado pelo PÚBLICO, Carlos Fernandes, administrador da Rave, diz que a ideia não é inédita e já tinha sido analisada. E explica que a TTT não é só para a alta velocidade, mas também para o serviço convencional, no qual se incluem os comboios de mercadorias, os suburbanos para o Barreiro e o longo curso da CP para o Alentejo e Algarve.
O traçado pela margem norte traz problemas de exploração porque dessa forma a gare do Oriente deixaria de ser uma estação de passagem (como está previsto hoje) e passaria a ser uma estação terminal. Ora isso implicava construir ainda mais linhas onde já não há espaço para tal.
Na exploração ferroviária é totalmente diferente uma estação términus (onde todos os comboios invertem a sua marcha porque chegaram ao fim da linha), de uma estação de passagem, onde, por exemplo, o comboio vindo do Porto pára e segue para Alcochete. E é a TTT que permite dar continuidade ao trânsito dos comboios.
Por outro lado, a Rave tem previsto um serviço com comboios de alta velocidade que fazem viagens curtas, por exemplo, entre Leiria e Évora, ou Coimbra-Algarve. Serviços estes que não seriam possíveis se o Oriente estivesse no fim da linha e obrigasse a reverter as marchas.
"A entrada e saída no Oriente de comboios vindos do Porto, de Alcochete, de Madrid, e ainda os dos serviço convencional, trariam um risco de congestionamento muito elevado", conclui Carlos Fernandes.


