Falta de acordo faz despertar os mercados internacionais e coloca de novo sob pressão a dívida pública portuguesa 
28.10.2010 - 07:34 Por Rosa Soares, Ana Rita Faria
Depois de terem passado os últimos dias tranquilos, confiantes num acordo entre o Governo e o PSD para a viabilização do Orçamento do Estado (OE) para 2011, os mercados da dívida voltaram ontem a despertar quando Eduardo Catroga anunciou não ter chegado a acordo com o ministro Teixeira dos Santos.
Logo a seguir às 11h00, quando o antigo ministro das Finanças anunciou o fim do processo negocial, a taxa de juro das obrigações do Tesouro a dez anos começou a subir, chegando ao final do dia nos 5,920 por cento, mais 0,25 por cento que no dia anterior. O spread - ou seja, a diferença entre os juros da dívida portuguesa e alemã, que é a referência dos investidores - permanece elevado e situava-se ontem ao final do dia nos 335,1 pontos base.
Apesar de mais alta do que nos últimos dias, a taxa de juro das obrigações a dez anos mantém-se ainda distante do recorde registado no dia 28 de Setembro (6,637 por cento), que levou o Governo a antecipar o anúncio das medidas de austeridade previstas para 2011.
Nas restantes maturidades (cinco e dois anos), a tendência foi também de subida, para os 4,595 por cento e 3,219, respectivamente, com os investidores a mostrarem-se receosos de que o facto de o Governo e do PSD terem chegado ao fim das negociações sem um acordo possa vir a comprometer a viabilização do OE.
A emissão de dívida pública ontem realizada pode ter escapado por pouco à pressão dos mercados, visto que se realizou antes do anúncio do fim das negociações. O Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP) colocou ontem duas emissões de dívida de longo prazo, num total de 1,22 mil milhões de euros, que é quase o valor máximo do intervalo de encaixe que estava previsto (entre 750 mil milhões a 1,25 mil milhões). Enquanto as obrigações a quatro anos conseguiram uma taxa mais favorável do que na última emissão comparável (4,014 por cento), o mesmo não aconteceu com a colocação de dívida a oito anos, que sofreu um aumento dos juros para 5,137 por cento.
A evidenciar a forma como os mercados estão a penalizar as "indecisões" políticas nacionais, o preço dos credit default swaps (uma espécie de seguros contra o incumprimento no pagamento da dívida) voltaram ontem a subir em mais de oito pontos para 346,67 pontos, o que significa que por cada dez milhões de euros aplicados em dívida pública de Portugal, os investidores têm de pagar um seguro anual de 346,67 mil euros. Em alta estiveram também os credit default swaps sobre a dívida da Grécia, num dia em que o país anunciou que o seu défice foi, afinal, de 15 por cento em 2009.
Queda na bolsa
Já a Bolsa de Lisboa encerrou ontem com uma queda de 1,25 por cento, a maior da Europa. O dia foi negativo em todas as praças europeias. A praça portuguesa esteve boa parte da manhã positiva, invertendo para terreno negativo após a notícia de ruptura das negociações entre o PSD e o Governo para a viabilização do próximo OE. A desvalorização, com 18 títulos em queda e só dois a subir, voltou a colocar o PSI-20 abaixo da barreira dos oito mil pontos.
Entre os títulos mais penalizados estão os dos três bancos cotados no PSI-20, sector que está muito dependente da aprovação do OE e da restituição da confiança dos mercados para se poder financiar a taxas de juro mais baixas. O BCP liderou as quedas do índice, recuando 2,84 por cento. O BES caiu 2,36 por cento e o BPI deslizou 2,45 por cento.
Para o saldo negativo contribuiu ainda a EDP, a perder 1,18 por cento, e a EDP Renováveis, a recuar 2,19 por cento. A contrariar a tendência negativa apenas estiveram a Galp Energia, a ganhar 0,08 por cento, e a Zon Multimédia, a subir 1,66 por cento.


