Carvalho da Silva e João Proença juntos no ano passado
(Foto: Enric Vives-Rubio/arquivo)Os secretários-gerais da CGTP e da UGT vão estar juntos esta quinta-feira pela segunda e provavelmente última vez numa greve geral enquanto líderes sindicais.
“O medo é compreensível, é um sinal da condição humana”, afirmou o secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva. No entanto, o líder da Intersindical entende que começa a “despertar” a união entre os portugueses.
Na véspera da greve geral que une a CGTP e a UGT, Carvalho da Silva disse à Lusa que “a unidade na acção é muito importante” e que o momento actual exige “uma identidade forte de todo o movimento sindical”.
Confessando que ainda desconhece a sua agenda para quinta-feira, o secretário-geral da CGTP indicou que o dia começa cedo. “Lá pelas 5h30”, referiu.
Ao fim de 25 anos à frente da Intersindical, Carvalho da Silva reconheceu que muitas foram as paralisações que integrou, mas admitiu que “esta greve se realiza num contexto de exigência de um enormíssimo sacrifício aos trabalhadores portugueses”.
“É preciso o país levantar-se”
Assumindo que “a pressão do desemprego e da precariedade de trabalho são muito grandes”, Carvalho da Silva reforçou também que “é preciso o país levantar-se contra esta proposta de empobrecimento e de retrocesso social e civilizacional”.
Mas e o medo? Ora, “o medo é compreensível, é um sinal da condição humana”, disse Carvalho da Silva, quando confrontado com o facto de as pessoas recearem perder o emprego em tempos de austeridade.
“Neste momento, há portugueses que vivem muito mal, em situação de pobreza, quer sejam trabalhadores no activo, quer desempregados e pensionistas ou reformados, e há outros que, não vivendo na pobreza, às vezes cinco ou dez euros no orçamento familiar contam muito”, lamentou o sindicalista.
Apontou ainda o dedo aos “patrões sem escrúpulos, que aproveitam para intensificar a repressão e a exploração”, num contexto de austeridade. Mas, para Carvalho da Silva, “há momentos na vida dos povos que exigem todo o sacrifício e quando está em causa a dignidade, a justiça e a democracia, ai de quem não vai à luta”.
“Greve pretende ser um sério aviso”
Já o secretário-geral da UGT, João Proença, considerou que a greve geral de quinta-feira é uma greve de indignação e de aviso ao Governo e ao patronato sobre a necessidade de o país apostar no crescimento e no emprego.
“Esta é uma greve geral diferente, é a greve geral da indignação e do descontentamento, porque as pessoas sentem que os seus direitos foram fortemente afectados, com os cortes brutais nos salários da administração pública e no sector empresarial do Estado e a ameaça de total desregulamentação dos horários de trabalho no sector privado”, disse João Proença à Lusa na véspera da paralisação.
A insegurança no emprego é, segundo o sindicalista, outros dos motivos que leva os trabalhadores portugueses a protestar: “Temos uma situação em que todos vemos que em 2012 a recessão vai ser muito profunda e que o desemprego vai agravar-se e o Governo ignora isto e, em vez de dar segurança para o futuro, assume políticas de quero, posso e mando.”
O líder da UGT acusou igualmente o Executivo de Pedro Passos Coelho de continuar a anunciar medidas “completamente inesperadas, sempre contra os trabalhadores”, que “não abrangem o capital nem as empresas”.
“Esta greve pretende ser um sério aviso ao Governo e também aos empresários de que temos de ter um Portugal preocupado com a competitividade, o crescimento e o emprego”, considerou Proença.
País de joelhos
O sindicalista repudiou ainda a ideia de que a solução para os problemas do país seja a continuação dos sacrifícios impostos aos trabalhadores no activo e aos pensionistas.
“Não podemos ter um país de joelhos perante a troika, não podemos ter um país de joelhos perante quem pôs a Grécia de joelhos, porque não queremos ser como a Grécia, queremos ser um país que resolve os seus problemas”, defendeu.
João Proença prevê uma forte adesão à greve geral – “o descontentamento é muito forte” –, mas admitiu que as dificuldades económicas vão condicionar a adesão de muitos trabalhadores.
Os dois sindicalistas não terão a oportunidade de voltar a estar juntos à frente de uma greve geral dado que ambos estão a caminho de deixar a liderança das centrais sindicais.
João Proença ainda continuará à frente da UGT em 2012, uma vez que o próximo congresso da central está previsto para o primeiro trimestre de 2013 e nessa altura será escolhido o seu sucessor – os estatutos da central não lhe permitem continuar na liderança.
Por seu lado, Carvalho da Silva vai deixar a liderança da CGTP no próximo congresso, em Janeiro de 2012, por uma questão de idade, pois completou 63 anos no início de Novembro e a central não tem dirigentes com idade de reforma, uma regra que o impediria de completar mais um mandato de quatro anos.
Esta é a terceira greve geral em que a CGTP e UGT se juntam, mas apenas a segunda greve conjunta das duas centrais sindicais portuguesas, já que em 1988 a CGTP decidiu avançar e a UGT, autonomamente, também marcou uma greve geral para o mesmo dia.
A greve geral desta quinta-feira foi marcada após o Governo ter anunciado novas medidas de austeridade, nomeadamente a suspensão dos subsídios de férias e de Natal na função pública, assim como o aumento do tempo de trabalho no sector privado.



