Henrique Granadeiro: "A fronteira não é entre o preço e a honra mas entre o preço e o futuro" 
23.06.2010 - 07:23 Por Ana Brito, Miguel Gaspar
Na sua primeira entrevista desde o início da disputa pelo controlo da Vivo, o chairman da Portugal Telecom, Henrique Granadeiro, critica a hostilidade do parceiro espanhol neste processo.
O que aconselha os accionistas a fazerem na assembleia-geral (AG) da próxima semana?
O conselho de administração (CA) já tomou uma posição sobre essa matéria considerando que o valor proposto não avalia suficientemente o activo Vivo em função do seu valor estratégico e das sinergias que cria para a Telefónica. Isso tem implícita uma recomendação de recusa da oferta. Não há nenhuma razão para alterar aquilo que o conselho de administração já decidiu e tornou público oportunamente.
Qual é afinal o preço justo da Vivo?
O CA não tem nenhum mandato de venda e como tal não tem preço para vender. É claro que o conselho da Telefónica tem o seu mandato para comprar e terá com certeza os seus limites. Nós não estamos vendedores e não vamos indicar em nenhuma circunstância o preço de um activo que não queremos vender.
A revisão do preço foi ou não negociada entre a PT e a Telefónica ou entre accionistas da PT e a Telefónica?
Não foi negociada pela simples razão de que o CA da PT não concedeu mandato a ninguém para vender o activo. Temos contactos regulares com a Telefónica e terão ocorrido também nessa altura, mas contactos e discussões não são negociações e muito menos acordos. Não houve nenhum acordo nem formal, nem informal, sobre a Telefónica e a PT acerca do preço da Vivo, que repito, a PT não quer vender.
Mas antes da revisão da proposta houve encontros e discussões entre a PT e a Telefónica?
Houve efectivamente encontros e antes da primeira oferta também. Todo este processo tem um certo carácter anómalo na medida em que nós temos um acordo de parceria com a Telefónica no âmbito do qual foi criada a Brasilcel. O que é normal entre dois parceiros de 50 por cento é que se um deles está confortável nessa parceria ele inicie conversações ou negociações com calma para que se possam harmonizar os interesses de ambos. Isso não ocorreu e tanto quanto me lembro a Telefónica nunca fez nenhuma aquisição hostil até hoje. A primeira iniciativa hostil é exactamente contra o seu parceiro de há 13 anos, com o qual construiu um negócio que teve um enorme sucesso e criação de valor. Se eu estivesse desconfortável na parceria e tivesse apresentado à outra parte um preço para comprar certamente que teria seguido aquilo que é uso em qualquer negócio que era dar à outra parte o direito de optar pelo preço justo que eu tinha fixado. Ora a Telefónica não quis dar à PT a opção pelo preço justo que ela pretendia oferecer. Isso de facto é um afastamento em relação às boas práticas que se usam em qualquer negócio, em qualquer parte do mundo.
Agora que estamos nesta semana decisiva antes da AG está à espera que a Telefónica suba o preço?
Não estou à espera de coisa nenhuma. Eu não giro expectativas, tenho que me confrontar com a realidade. E a que está em cima da mesa é uma oferta de compra de 50 por cento da Brasilcel, por 6,5 mil milhões de euros.
Mas esta é a semana em que se vai decidir qual é o preço?
Para nós não é, porque não estamos vendedores. Mas desconheço o que se passa nos órgãos próprios da Telefónica e não estou aqui para fazer futurologia.
Neste caso também estamos perante uma guerra psicológica entre as duas empresas? É esse o tipo de jogo que estamos a viver?
Acho que não há jogo nenhum. A administração da Telefónica faz aquilo que acha melhor para defender os interesses dos seus accionistas e a PT faz o mesmo. Nós somos fiduciários e somos muito leais com os nossos accionistas, daí que os tenhamos informado profusamente sobre aquilo que está em causa e aquilo que vai ser discutido na próxima assembleia-geral, que não é mais preço ou menos preço, mas sim o projecto que os accionistas querem para a PT. Se querem manter o projecto que ficou definido após a OPA da Sonaecom, e que foi aprovado também pela Telefónica enquanto accionista, ou se os accionistas entendem trocar o futuro por dinheiro e cristalizar o valor que já foi criado de então para cá.
Ricardo Salgado proferiu uma frase que ficou como uma das frases chave deste processo: “Tudo tem um preço, menos a honra”. Para si, neste negócio, onde está a fronteira entre o preço e a honra?
Nesta matéria eu prefiro balizar as coisas entre o preço e o futuro, porque é numa perspectiva de futuro que esta questão vai ter de ser decidida. O que é que os accionistas querem para a PT? Uma PT com escala? Com dimensão e capacidade de gerar tecnologia e inovação e de modernizar os países onde opera? A fronteira que se põe ao conselho de administração da PT não é entre o preço e a honra, mas entre o preço e o futuro.
Foi mandatado, em conjunto com os engenheiros Zeinal Bava e Pacheco de Melo para continuar a negociar com a Telefónica. Tem havido encontros?
Não fomos mandatados para negociar, pela simples razão de que não estando a PT vendedora da sua participação na Vivo não mandatou ninguém para negociar, mas para discutir e estar disponível para junto com a Telefónica discutir o que esta entendesse discutir. Não temos nenhum dever de iniciativa, porque o nosso mandato é de estar disponíveis para discutir. De facto, não fomos procurados pela Telefónica para aprofundar a proposta ou discutir qualquer aspecto da proposta, embora nos cheguem ecos de que a Telefónica tem procurado alguns accionistas para os sensibilizar para a sua oferta.
Ao longo deste processo os accionistas têm estado em sintonia ou tem havido algum desgaste entre accionistas e entre a gestão e accionistas?
Penso que é claríssimo que não tem havido qualquer fractura entre a administração e os accionistas. Os accionistas não são obrigados a pronunciar-se sobre esta questão. Eles certamente deixarão até ao último minuto a liberdade para votar de acordo com aqueles que são os seus interesses. Não pode marcar-se falta a nenhum accionista por não ter tomado posição durante esta disputa. Compete-nos a nós, conselho de administração, prestar toda a informação, para que eles possam formular as suas posições. Mas tem-nos sido agradável ouvir os accionistas que têm publicamente sustentado as opiniões do conselho de administração.
Mas dentro do conselho de administração também tem havido esse consenso?
Mais que consenso, as decisões do conselho de administração nessa matéria têm sido unânimes. Eu não costumo dizer quais são as votações do conselho, mas a título excepcional posso dizê-lo. Aliás, no primeiro comunicado até era declarada, no segundo não foi, mas na realidade até era uma decisão unânime e não há qualquer fractura nem dentro do conselho, nem entre o conselho e algum accionista sobre esta matéria.
Mas ainda há pouco tempo tivemos o presidente da Ongoing a defender publicamente que a gestão deveria tomar uma posição mais taxativa em relação à oferta e ele está no conselho de administração.
Mas o conselho de administração tomou a posição que entendia adequada para responder a esta oferta, que é a única que está em discussão. E por isso o conselho já falou e não deve subsistir qualquer dúvida que isso tem implícita uma recomendação no sentido da rejeição da oferta.
Quem tem vantagem neste momento na contagem de espingardas?
Se soubesse não lhe dizia. Mas vamos deixar aos accionistas a liberdade de se pronunciarem até ao último momento.
Num momento como este de aperto financeiro acha que há escolha para os accionistas ou pelo contrário eles irão sentir-se demasiado tentados a aceitar um encaixe financeiro desta dimensão?
Há accionistas que estão desde sempre connosco, e de facto a PT tem uma forte base de accionistas estáveis, e há accionistas que entram e saem como em qualquer companhia cotada. E estes divergem na sua atitude dos accionistas estáveis, que estão com o projecto e têm sustentado a empresa em momentos difíceis e têm todas as razões para estar contentes com o desempenho da PT. A PT depois de ter vencido a OPA da Sonaecom cumpriu todos os objectivos com que se comprometeu. Já pagámos dividendos de 6,4 mil milhões de euros, desde a crise da Lehman a PT é a companhia de telecomunicações da Europa que tem tido um retorno total accionista mais elevado, de 20,6 por cento, activos que na altura da OPA estavam avaliados em cerca de 2 mil milhões hoje já têm em cima da mesa uma oferta de 6,5 mil milhões. Penso que não só pela forma como a PT cumpriu todos os compromissos com os seus accionistas, mas também pela forma como valorizou os activos que tem à sua guarda, tem merecido a confiança dos accionistas estáveis, quer nacionais, quer internacionais, porque nós não fazemos essa distinção.
Mas em relação aos accionistas portugueses de referência, pensa que estes têm o dever de defender a estratégia do conselho de administração?
Não pomos o problema nesse enfoque. Os accionistas são os donos da empresa e do seu dinheiro, têm os seus problemas e objectivos próprios e têm naturalmente alternativas para aplicar o seu dinheiro. Por isso não me parece que deva fazer apelo a qualquer valor de patriotismo ou moral para prender os meus accionistas.
Na defesa da OPA da Sonaecom a sua postura foi mais aguerrida e a própria empresa foi mais taxativa na forma como disse aos accionistas que rejeitassem a oferta. Neste caso não, nem mesmo nos documentos divulgados ao mercado e consequentemente aos accionistas. Porquê?
Primeiro porque as operações são completamente diferentes. No caso da Sonaecom nós estávamos perante uma OPA, uma oferta para comprar a empresa. Aqui estamos a falar da venda de um activo da PT; um activo que é particularmente importante, que é mesmo configurante do projecto da própria PT, mas apesar de tudo é a venda de um activo. O conselho de administração tem competência para decidir sobre essa matéria e numa primeira oferta que teve decidiu liminarmente que não. Quando foi feita uma segunda oferta o conselho entendeu que devia acabar com este processo de ofertas sucessivas e disse qual era a sua posição sobre a oferta e chamou os accionistas a que se pronunciassem não sobre o preço, mas sobre o projecto que querem para a PT. São operações diferentes, que têm algumas zonas de convergência, porque é um diálogo aberto com os accionistas, pelo que é compreensível alguma comparação entre as duas situações, mas são operações substancialmente diferentes e naturalmente com formas de abordagem diferentes. Quanto à minha intervenção pessoal, na altura eu era presidente executivo e do conselho de administração e a minha exposição era naturalmente maior. O presidente executivo da empresa tem sido bastante activo e brilhante na condução desta operação e eu estou perfeitamente identificado com as operações que ele tem assumido em nome da empresa.
Ao remeteram a decisão de venda para os accionistas têm certamente que ter traçado um plano B. Qual é?
Não estamos a propor aos accionistas um plano estratégico. Estamos a propor que se pronunciem sobre uma operação, apenas isso. É configurante do próprio projecto da PT, mas não deixa de ser apenas a venda de um activo. Mesmo quem fuma, não fuma dois cigarros ao mesmo tempo, e por isso vamos tratar deste assunto e não vamos misturar considerações deste assunto com considerações alternativas ou potenciais.
Se os accionistas rejeitarem a oferta da Telefónica e sairmos da AG tal como estamos hoje, acha que ainda será possível a coabitação entre a Telefónica e a PT?
Como sabe, a Telefónica esteve envolvida na OPA, e esteve envolvida do lado errado. Mas no dia seguinte de então, como no dia seguinte de 1 de Julho nós somos profissionais, não há questões pessoais sobre esta matéria. O nosso interesse e o nosso dever fiduciário é de nos entendermos sobre como continuar a fazer da Vivo um caso único no sector das telecomunicações. Todas as questões pessoais serão arquivadas. E tanto nós como os responsáveis da Telefónica, que são também responsáveis fiduciários perante os seus accionistas, temos a preocupação de promover e desenvolver os interesses da Vivo.
O interesse da gestão da PT é que se os accionistas votarem a favor da manutenção do status quo é que a cooperação com a Telefónica continue como existe hoje?
Seguramente que no dia seguinte estaremos reunidos para negociar e para encontrar a melhor maneira de promovermos os interesses de ambos. Certamente que vamos acabar como deveríamos ter começado: a discutir entre nós as condições de viabilidade da parceria.
Mas admite que na sequência de um desfecho desse tipo a Telefónica venha a avançar com uma OPA sobre a PT?
Não acho nada. Neste momento estamos a resolver um problema, se mais tarde vier a surgir um problema de outro tipo abordá-lo-emos nos termos e condições em que ele se puser.
Mas assumindo que já tem um problema em mãos, acha que a PT teria força para se defender de uma OPA da Telefónica?
Eu não vou misturar os problemas. Se um dia se puser a questão, terá a resposta que o conselho de administração considerar adequada.
Imaginando um outro cenário, o de que a Telefónica conseguirá convencer os accionistas a vender a Vivo, o que fará então o conselho de administração?
O conselho de administração, com os meios financeiros que ficarem ao seu dispor, vai ter de definir para a PT um novo futuro. Porque o futuro dentro do projecto actual será truncado. Mas é óbvio que a PT ficará dotada de meios que permitirão abordar a criação de um novo futuro.
O Dr. Henrique Granadeiro quer fazer parte desse futuro?
A sua pergunta parte do pressuposto de que uma decisão da assembleia-geral será uma vitória e outra decisão uma derrota. O nosso dever é criar valor para os accionistas e por isso se criamos valor para os accionistas cumprimos o nosso dever e não temos nenhuma razão para sermos penalizados ou para nos autoflagelarmos. Nós cumprimos todos os compromissos que assumimos por ocasião da OPA e valorizámos os nossos activos. Portanto estamos perfeitamente confortáveis com o nosso desempenho. Não podemos ver o problema como uma vitória ou uma derrota, vamos ver o problema como uma decisão dos accionistas que são livres de manter o projecto actual para a PT e o futuro que esse projecto contém – e nós efectivamente não encontramos melhor aplicação para o valor que foi oferecido do que mantê-lo na Vivo, com o potencial de valorização bastante elevado dado o contexto económico do Brasil.
Alguma vez se colocou a possibilidade de ser a Vivo a comprar a Telesp à Telefónica, reforçando a sua liderança e mantendo-se a parceria entre portugueses e espanhóis?
Essa é uma das hipóteses que, se este processo tivesse nascido bem, por uma discussão aberta entre os dois parceiros desta joint venture, poderia ter sido explorada e aprofundada e que seguramente poderia ser uma solução para as sinergias que persegue a Telefónica e para o racional estratégico da PT.
Poderá ser esse um dos cenários alternativos se tudo acabar num impasse no dia 30?
Há várias hipóteses que podem ser abordadas. Mas era por aí que devíamos ter começado.
Dilma Rousseff, a candidata à presidência do Brasil, disse esta semana que o Brasil vê com bons olhos a continuação da PT no país. Como interpretou esta afirmação? Como um sinal quanto ao negócio da Vivo ou um sinal de abertura de Brasília para outra solução relativa à presença da PT no Brasil?
Vejo essa referência como um reconhecimento, que considero justo, do contributo relevante que a PT, através da Vivo e de outros investimentos periféricos, tem dado à modernização das telecomunicações no Brasil e ao alargamento da oferta de telecomunicações a sectores cada vez mais amplos da população brasileira. E vejo naturalmente o desejo de que a PT se mantenha associada ao sector das telecomunicações no Brasil. É encorajador.
Tem-se falado muito na hipótese de uma ligação da PT à Oi, no caso de a relação com a Vivo terminar. A entrada da PT na Oi está a ser considerada?
Não está. Temos lido e ouvido muitas coisas acerca da Oi Telemar. Quero dizer formalmente que não temos qualquer negociação nem conferimos mandato a ninguém para tratar seja o que for nessa direcção da Oi. Algumas notícias até nos parecem particularmente militantes e interferentes naquilo que está neste momento em discussão. Nós queremos circunscrever o problema àquilo que ele é. Quero ser bastante taxativo: não há qualquer interferência do problema da Oi sobre aquilo que está em discussão.
Mas com Vivo ou sem Vivo, com Oi ou sem Oi, o Brasil continua a estar na visão estratégica do CA, independentemente da forma que assumir?
Nós estamos no Brasil no quadro dessa parceria com a Telefónica e ela é incompatível com outras opções, nos termos da legislação brasileira. Não vamos começar a misturar os planos ou a misturar considerações que não vêm directamente ao caso. Vamos é saber se os accionistas querem ou não manter o projecto em que nos investiram.
Sendo o Dr. Granadeiro o responsável pelas relações com os accionistas, já discutiu o assunto com o accionista Estado?
Já, obviamente. O accionista Estado é um accionista e não vejo nenhuma razão para o discriminar nas conversas que temos tido com todos os accionistas, incluindo aqueles que não conhecemos. Mal seria que numa matéria destas excluíssemos ou tratássemos de uma maneira diferenciada o Estado. É conhecida a intervenção do senhor primeiro-ministro e a orientação de voto que deu aos accionistas do sector público, quer a instituições financeiras, quer a outras instituições. Devo dizer que não me sinto chocado nem surpreendido com essa atitude, dado o carácter estruturante que a PT tem para a economia do país e para a projecção internacional do país. E deixe-me dizer-lhe sem qualquer complexo que não acho que a intervenção do senhor primeiro-ministro seja mais nacionalista do que o bloqueio que o primeiro-ministro italiano pôs sobre a Telecom Italia. Ou mais proteccionista do que a posição do primeiro-ministro britânico ao pedir “british jobs for british boys”. Ou mais contrário às regras da UE do que a proibição que o Presidente Sarkozy pôs à deslocalização das fábricas da Renault. Ou que seja mais abusivo das boas práticas do comércio internacional do que as doses maciças de dinheiros públicos que foram injectadas nos bancos “too big to fail” ou nas empresas emblemáticas, quer nos liberalíssimos Estados Unidos quer um pouco por todo a Europa. Não sejamos ingénuos: Portugal é pequeno de mais para ser o bom aluno e o exemplo das melhores práticas da UE e não é suficientemente grande para se defender dos predadores.
Conta com o apoio do Estado?
Conto com o apoio das acções do Estado. Como têm reparado, não têm faltado opiniões de analistas. Tem havido muitas opiniões. Mas tenho pena que não haja tantas acções para votar em Portugal. Pela rentabilidade que tem dado aos seus accionistas, a PT tem todas as condições para ser escolhida por mais indivíduos e pelas próprias instituições de segurança social e de seguros. É pena que a PT não tenha uma exposição maior a esses investidores nacionais. Não é um favor que pedimos aos accionistas portugueses, é uma escolha de mérito. Lembro-lhe que há países onde determinadas instituições de segurança social ou de gestão de poupanças são obrigadas a investir em empresas nacionais. O Brasil é um desses países.
É uma medida que faria falta em Portugal?
Não estou a advogar de maneira nenhuma um regresso do proteccionismo, embora tenhamos verificado no decorrer desta crise que atravessamos desde 2008 que os países têm sido bastante pragmáticos na defesa dos seus interesses. Continuo fiel às minhas convicções liberais, mas acho que há determinadas aberturas que só se podem fazer em conjunto com os demais países do mesmo espaço económico. Se houver uma assimetria na condução dessas aberturas, naturalmente que serão os países da segunda velocidade que serão os sacrificados. Por isso, façamos exercícios de economia aberta, mas não sejamos parvos.
Com o fim esperado da golden share, é chegada à altura de haver acções suficientes para se tomarem decisões na altura crucial?
Aquilo que melhor defende qualquer projecto é a valia do projecto e a boa gestão. Para defender um projecto como o da PT, o melhor caminho é o da valorização da PT. Não sou defensor nem de um desarmamento ingénuo no sector, antes de os outros operadores serem desarmados. Lembro-lhe que há outras golden shares e há participações inultrapassáveis do Estado em muitos operadores de maior dimensão na Europa. É bom que, tal como nas offshores, que se vá clarificando o horizonte, mas este deve ser um movimento harmónico dentro deste espaço económico e não um movimento assimétrico em que aos mais pequenos se vai exigir um comportamento exemplar enquanto se fecham os olhos aos que têm mais poder na mesa de decisão da Europa.
Acha que neste caso específico, a decisão do tribunal europeu sobre as golden shares, é uma questão que está pendente há anos. Há algum aceleramento do processo que está ligado ao que se está a passar neste momento?
Eu gostaria de crer que não. E que as coisas têm seguido o seu caminho sem interferências de lobbies e de outros critérios que não os estritamente aplicáveis. Mas o que não posso deixar de constatar e de lamentar é que numa questão que opõe Portugal à UE, alguns responsáveis portugueses tenham sido tão fervorosos da posição da UE contra Portugal, sem que tivessem exigido a mesma clarificação em relação a outras formas de intervenção que outros Estados têm em empresas nacionais, como é o caso da France Télécom.
Se estivéssemos a assistir a uma disputa entre a France Télécom e a Telefonica estaríamos a ter notícias do Tribunal Europeu?
Não quero crer que haja qualquer ligação entre a aceleração do processo no Tribunal Europeu e esta questão entre a PT e a Telefónica. Quero acreditar que isso não passa de uma coincidência.
Como tem sentido a actuação do Governo espanhol neste caso? Pensa que tem sido pragmático na defesa dos interesses da Telefónica?
Não sei quais são as condições do governo espanhol sobre esta matéria, nem tenho que saber. Não sei o que se passa nos corredores do poder em Portugal, quanto mais em Espanha.
Manter a Vivo é ou não uma guerra perdida?
Não sou propriamente especialista em guerras perdidas, mas de modo algum sinto que esta seja uma guerra perdida ou que não haja alternativas. Deixe-me dizer-lhe o seguinte, a mim impressiona-me um pouco estes neo-liberais que acham que tudo se compra e tudo se vende e até parece que uma companhia de telecomunicações é um produto que está na prateleira de um supermercado qualquer. Efectivamente a Vivo tem um valor estratégico único e por isso os métodos tradicionais de avaliação, não são os mais adequados para uma empresa que tem este perfil de crescimento. Esta visão neo-liberal de que ‘não há saída e tem de ser’ além de fatalista é também uma visão demasiado ingénua de algumas mentes neo-liberais que acham que uma empresa de telecomunicações é a mesma coisa que um sabonete e é um bocadinho mais de preço ou mais de embalagem.
Porque é que se tem mantido em silêncio no decorrer deste processo e só decidiu falar agora?
Porque foi a minha altura de falar. não penso que a PT possa ser censurada por estar calada. A PT tem sido bastante activa nos sítios próprios tem feito um esforço tremendo de informação aos seus accionistas. Nós somos muito leais e muito ciosos dos nossos deveres. A nossa posição é muito clara, não estamos vendedores da Vivo e temo-lo dito em todas as latitudes. Já disse que me identifico com as posições do CEO, que tem feito uma defesa bastante intensa desta operação. Mas como lhe disse, esta não é uma OPA, é a venda de um activo, que se enquadra dentro da gestão operacional da companhia. Mas considero que devo dar uma palavra na altura em que os accionistas são chamados a decidir.
O engenheiro Bava foi muito crítico em relação às declarações do administrador financeiro da Telefónica e chegou a defender que este se deveria demitir do conselho de administração da PT. Concorda com o seu CEO?
É o exemplo bíblico de que não se pode servir a dois senhores. O administrador financeiro da Telefónica tem deveres fiduciários para com a Telefónica e tem naturalmente a obrigação de vestir a camisola da Telefónica. O problema é que esse administrador é também administrador da PT e por isso também tem deveres fiduciários para com a PT e obrigações, incluindo morais, com esta empresa. Por isso, aquilo que me parecia ter sido mais apropriado teria sido que ele renunciasse ou suspendesse o mandato que desempenha na PT para com toda a liberdade poder defender os interesses da Telefónica. O facto de não o ter feito criou uma liberdade que é censurável.
Esclarecido que está que a proposta de dividendo extraordinário da Telefónica não será incluída na ordem de trabalhos da AG, falta saber se a Telefónica será autorizada a votar. Qual é a sua opinião?
Sobre essa matéria não devo dizer qual é a minha opinião embora seja uma opinião fácil de presumir para quem está familiarizado com o Código das Sociedades Comerciais. Essa é um competência do senhor presidente da AG, que resolverá com a sapiência com que recusou a inscrição de um novo ponto na ordem do dia por parte da Telefónica. O despacho de indeferimento é bastante fundamentado do ponto de vista doutrinário, é a sua competência, é um despacho de uma extrema elegância, que inclusivamente deixa por abordar a questão do prazo, que não foi cumprido por parte da telefónica o que é uma situação caricata. Eu vejo de muito mau perder as críticas que a Telefónica faz ao presidente da mesa da AG quando efectivamente parece que tem alguma carência de competência nesta matéria porque parece que nem sequer soube ler bem os prazos em que poderia ter apresentado a sua proposta. Por isso, e no que diz respeito à capacidade de voto da Telefónica na AG é uma matéria da decisão do presidente da AG e eu não vou interferir nessa competência que ele exerce com total independência face ao conselho de administração e a qualquer accionista.
Sobre este assunto tem sido invocado o precedente da Sonaecom, que votou na AG da OPA. Mas efectivamente o que aconteceu foi que a Sonaecom [proprietária do PÚBLICO] votou na parte de alteração de estatutos, como qualquer accionista. Não se chegou à parte da operação porque a OPA morreu nos estatutos pois uma condição de sucesso era a obtenção de mais de 50 por cento dos votos e como os estatutos não foram alterados não havia condições de sucesso e por isso não é transponível para a presente circunstância esse precedente dos estatutos. Parece-me sim que a Telefónica deve estar presente na AG para esclarecer qualquer accionista que o solicite sobre a sua proposta uma vez que não é este conselho de administração da PT que se sente habilitado a esclarecer a oferta da Telefónica, uma vez que é contra ela.
Acha que o timing que a Telefónica escolheu para avançar tem a ver com toda esta crise que vivemos? Pensa que esse factor afectou o momento e até o modo como a oferta foi feita?
É um facto que na primeira declaração que o CA fez considerou a oferta oportunística. Uma consideração que tem subjacente as questões a que faz alusão.
E acha que esta situação, este confronto, é um sinal da fragilidade que a economia portuguesa tem em se projectar fora de portas em virtude desta crise? Acha que há aqui um sinal, uma ameaça, para outras empresas portuguesas que estão a operar no estrangeiro?
Essa é uma questão que é dos livros; quando dentro do mesmo espaço económico há crises que são tão prolongadas como estas, é claro que há um apetite por parte de empresas mais poderosas de ir às compras e desencadear um movimento de consolidação. O que do ponto de vista dessas empresas pode ser muito interessante, mas do ponto de vista da coesão e da construção de um espaço comum europeu é altamente prejudicial porque cria factores de desconfiança e factores de esmagamento por países mais poderosos sobre países que pela sua fragilidade ou dimensão estão naturalmente mais expostos a essas práticas predatórias.
E o preço desse estado das coisas pode ser que uma empresa como a PT se possa tornar numa empresa de menor dimensão, com um raio de acção mais local?
Será uma empresa seguramente diferente. Se isso vier a acontecer, a venda dos 50 por cento da Brasilcel e do controlo da Vivo. A obrigação do CA será a de construir um novo futuro para essa PT em que os accionistas terão trocado o futuro por dinheiro.
Será uma PT mais pequena?
Ou não. Mas esse é um problema que se porá depois de dia 30 e sobre o qual não quero alongar-me porque aquilo que me motiva é a posição de que a Vivo não está à venda. E não estando à venda nós vamos procurar sensibilizar os nossos accionistas sobre o potencial de criação de valor que tem para eles manter a Vivo na órbita da PT.
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