Início da crise financeira de Agosto foi seguido por subida de taxas e quebra nas exportações 
23.10.2007 - 09:15 Por Sérgio Aníbal, PÚBLICO
No mês em que deflagrou a crise nos mercados financeiros internacionais (Agosto), as taxas de juro praticadas pelos bancos portugueses na concessão de novos empréstimos continuaram a subir para novos máximos, os montantes da concessão de novos empréstimos caíram para as empresas, mas mantiveram-se inalterados para os particulares, e as exportações de bens e serviços abrandaram de forma significativa.
Os dados são do boletim estatístico do Banco de Portugal publicado ontem e constituem os primeiros indicadores concretos da forma como o mercado de crédito e as trocas comerciais reagiram ao aparecimento repentino de um clima de grande turbulência nos mercados financeiros internacionais.
Foi a 9 de Agosto, com o anúncio do congelamento de três fundos de investimento do BNP Paribas, que a crise financeira se iniciou. A generalidade dos analistas afirma que, para Portugal, o risco de um contágio para a economia real depende da forma como os bancos vão emprestar dinheiro às empresas e às famílias e da evolução da procura externa dirigida às empresas portuguesas.
As pouco mais de duas semanas que se seguiram ao início da crise durante o mês de Agosto não são suficientes para retirar uma conclusão, mas alguns sinais constituem motivo para preocupação e alerta nos meses seguintes.
Na concessão de novos créditos, os bancos mantiveram a subida das taxas de juro exigidas à maior parte dos segmentos de clientes. Para as empresas, os créditos inferiores a um milhão de euros foram concedidos a uma taxa média de 7,11 por cento, o valor mais alto desde o início de 2003 (primeiro momento para o qual o Banco de Portugal publica dados) e uma subida face aos 6,87 por cento de Julho. Nos novos créditos concedidos a particulares, passou-se, para compra de habitação, de uma taxa de 4,74 para 4,82 por cento e, para consumo, de 9,07 para 9,23 por cento, também novos máximos. Uma evolução diferente surge nos créditos às empresas para as operações superiores a um milhão de euros, onde as taxas praticadas até desceram ligeiramente face a Julho.
No que diz respeito aos montantes emprestados, a evolução é diferente no caso das empresas e particulares. Para os primeiros, o mês de Agosto representou um abrandamento forte na concessão de crédito por parte dos bancos. Ao nível dos particulares praticamente não se nota diferenças face aos meses anteriores.
Os bancos têm vindo a enfrentar condições de acesso ao financiamento nos mercados internacionais mais difíceis e revelaram, num inquérito recente realizado pelo Banco de Portugal, que estavam já a apertar as condições na concessão de crédito por força do clima de instabilidade. Em Agosto, os dados já existentes apontam no sentido de taxas mais altas e menos créditos, mas será necessário esperar por informação dos meses seguintes para verificar se houve, efectivamente, uma mudança clara da tendência.
Exportações no negativo
Apesar de só muito dificilmente se poder pensar que a evolução das trocas comerciais no passado mês de Agosto já possa ter sido influenciada pela instabilidade financeira, o que é certo é que o desempenho das exportações portuguesas foi, nesse período, um dos mais fracos dos últimos anos. Em termos homólogos, registou-se um crescimento das vendas de bens para o estrangeiro de 1,3 por cento. Em Julho, a variação tinha sido de 9,5 por cento e é necessário recuar até Abril de 2006 para encontrar um desempenho tão negativo.
Ainda assim, em termos acumulados, desde o início do ano até agora, o crescimento das exportações de bens está situado, em termos nominais, nuns confortáveis 9,5 por cento, enquanto as exportações de serviços crescem mais de 15 por cento. A apreciação do euro e o eventual abrandamento das economias que mais procuram bens portugueses são as principais ameaças para a evolução futura da actividade exportadora.
7,11%
Taxa de juro média nos novos empréstimos a empresas (de menos de um milhão de euros), a mais alta dos últimos anos.
1,3%
Crescimento homólogo das exportações de bens durante o mês de Agosto, o valor mais baixo desde Abril de 2006


