Por muito que os países da zona euro, e do conjunto da União Europeia (UE) protestem, a cimeira de líderes dos Vinte e Sete de hoje dedicada à pilotagem política e económica do euro vai voltar a girar à volta de um acordo previamente concluído entre a França e a Alemanha, embora construído nas condições de Berlim.
Este foi o modelo de todas as grandes decisões assumidas pelos chefes de Estado ou de governo dos Vinte e Sete nas três cimeiras que dedicaram desde o início do ano à crise económica e financeira.
Angela Merkel, chanceler alemã, e Nicolas Sarkozy, Presidente francês, chegaram na segunda-feira a muito custo a um entendimento mínimo sobre o reforço das regras de gestão do euro, incluindo o endurecimento do pacto de estabilidade e crescimento. Simplesmente porque não tinham alternativa, conscientes de que qualquer falha no tradicional motor franco-alemão provocaria um ataque violento dos mercados ao euro.
Os termos do acordo foram largamente impostos por Merkel, como aconteceu, aliás, com os detalhes e o calendário da ajuda de 110 mil milhões de euros acordada à Grécia ou o fundo de 750 mil milhões para os países com eventuais dificuldades de financiamento.
Sarkozy, que desde o início do ano defendia uma ajuda urgente a Atenas, foi obrigado a refrear a impaciência enquanto a chanceler geria a hostilidade interna, apesar de saber que o arrastamento da decisão inflacionaria o seu custo. E o Presidente francês acabou por se inclinar ante a ortodoxia orçamental de Berlim, ao anunciar no fim-de-semana um inesperado programa de austeridade.
Como contrapartida, Merkel aceitou diplomaticamente, falar de "governo económico europeu" - a expressão preferida de Sarkozy - sabendo que se trata de um termo totalmente vazio que não a compromete em nada. Tanto mais que a chanceler recusa terminantemente a concepção que o Presidente francês tem da mesma: Sarkozy encara o "governo económico" como a institucionalização das cimeiras dos países do euro para lhes permitir tomar entre si as decisões pertinentes para a moeda única, com o apoio de um "secretariado" específico.
"Aligeirar o sistema"
Merkel insiste, pelo contrário, que as decisões sobre o euro interessam o conjunto da UE e terão assim de ser tomadas pela totalidade dos Vinte e Sete, porventura esperando que países como o Reino Unido ou a Suécia possam apoiar a sua ortodoxia orçamental. Isto, apesar de David Cameron, primeiro-ministro britânico - que participa hoje na sua primeira cimeira da UE -, se ter colocado completamente fora de jogo, com o argumento de que os problemas do euro têm de ser resolvidos pelos seus membros.
A obrigação de unidade franco-alemã levou Sarkozy a temporizar e aceitar por agora o princípio das decisões a Vinte e Sete. "É melhor aligeirar o sistema europeu e não multiplicar as instituições de modo a privilegiar o pragmatismo", afirmou ao lado de Merkel, defendendo que "mais do que nunca a Alemanha e a França estão decididas a falar a uma só voz".
Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, indignou-se por seu lado com a ideia francesa, que equivale a esvaziar a sua instituição no que se refere à gestão do euro. "A Comissão é o governo económico da Europa", defendeu no Parlamento Europeu, frisando que é isso que diz o tratado da UE.
Os franceses, e a generalidade dos grandes países, têm uma ideia diferente: "O governo económico é o Conselho Europeu" (as cimeiras de líderes da UE). Isso relega, de facto, a Comissão a um papel sobretudo de executante das suas decisões.



