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Fórum Económico Mundial 2012

Os "homens de Davos" voltam hoje à montanha suíça para discutir as falhas do capitalismo

25.01.2012 - 10:21 Por Ana Rita Faria

<p>Os movimentos de protesto já se instalaram em Davos </p>

Os movimentos de protesto já se instalaram em Davos

 (Vincenzo Pinto/AFP)
Angela Merkel abre Fórum Económico Mundial, trazendo crise da zona euro para a agenda. Banqueiros estão de volta, mas para se questionarem a si próprios

O capitalismo do século XX tem futuro? Ainda serve à sociedade do século XXI? As perguntas bem poderiam ser feitas pelos movimentos de protesto que já acamparam em Davos, na Suíça. Mas, na realidade, vão servir de mote ao primeiro debate do Fórum Económico Mundial (FEM), que começa amanhã na famosa estância de esqui. Os grandes banqueiros, sobretudo norte-americanos, estão de volta e, com eles, a herança dos erros da crise financeira dos últimos anos. Mas poderá haver pouco tempo para reflectir sobre isso, com a Europa e o mundo em suspenso por causa de outra crise, a da dívida soberana.

A própria agenda encarregou-se de antecipar as principais preocupações. De entre os 2600 líderes políticos, empresariais e financeiros que este ano se vão deslocar ao Fórum de Davos, foi a chanceler alemã Angela Merkel a escolhida para abrir o primeiro dos cinco dias do encontro. Com uma nova cimeira europeia já na próxima segunda-feira, os labirínticos corredores e os luxuosos hotéis de Davos bem poderão ser palco de discussões paralelas entre os líderes europeus, a braços com a perspectiva de recessão na zona euro, com um difícil acordo para a reestruturação da dívida grega e com a necessidade de travar o contágio da crise às grandes economias da moeda única.

Enquanto isso, os organizadores do FEM vão tentar, uma vez mais, elevar a discussão a outro patamar, em linha com o tema deste ano -A Grande Transformação: Dar Forma a Novos Modelos. Klaus Schwab, o fundador do Fórum de Davos, já deu o tiro de partida: "O capitalismo, na sua forma actual, não se adequa ao mundo à nossa volta." Declarações que bem poderiam vir dos Occupy WEF, uma réplica dos movimentos anticapitalistas que começaram em Wall Street, estenderam-se a outros pontos do globo e ergueram agora um acampamento de iglôs na montanha suíça a 1500 metros de altura. Contudo, esta é uma discussão que terá de ser feita pelos "homens de Davos". Ou seja, muitos dos banqueiros que tiveram de pedir a ajuda dos Estados, dos economistas que não previram a crise e dos líderes políticos que continuam sem dar uma resposta convincente aos problemas actuais.

Confiança abalada

Depois de, em 2009 e 2010, se terem afastado de Davos e de um tímido regresso no ano passado, os banqueiros voltam este ano a afirmar a sua presença. Vikram Pandit, o director executivo do Citigroup, é um dos co-presidentes do Fórum, o primeiro de um banco americano desde 2008.

Numa altura em que as atenções se têm voltado para os bancos europeus, expostos à dívida grega e dependentes da ajuda do Banco Central Europeu (BCE), a história recente do Citigroup até passa despercebida: foi o banco americano que mais pediu ajuda ao Estado durante a crise financeira, foi o que apresentou piorperformanceaccionista na última década e Vikram Pandit, que no início de 2009, reduziu o seu salário a um dólar até o banco ultrapassar os seus problemas, já recebeu no ano passado um bónus de 16 milhões.

Ao presidente do Citigroup junta-se uma delegação com os líderes dos maiores bancos, como o Bank of America e o JP Morgan Chase. São eles que, lado a lado com a classe empresarial de topo, com as dezenas de multimilionários e com cerca de 40 líderes políticos, terão a difícil tarefa de discutir cenários de mudança e os modelos económicos que podem fazer essa transição. E isto numa altura em que a confiança nos "homens de Davos" está mais frágil que nunca.

Esta semana, o barómetro Edelman, realizado no âmbito do FEM, revela um forte declínio na confiança pública nos Governos e no sector empresarial. Outro estudo do Fórum, sobre os Riscos Mundiais em 2012, colocava o agravamento das desigualdades sociais no topo das preocupações de mais de 400 especialistas do mundo académico, empresarial e governamental para a próxima década. Depois da Primavera Árabe ter gerado uma onda revolucionária de protestos, o receio patente no relatório é que o crescimento do fosso entre ricos e pobres, o desemprego jovem e a falta de confiança no futuro possam plantar as "sementes da desordem" e abrir caminho à agitação social.

O aumento do desemprego, o abrandamento da economia mundial e o risco de proteccionismo deverão ser algumas das questões no topo da agenda de Davos. Contudo, no meio das mais de 280 sessões oficiais - painéis, discursos eworkshops- haverá de tudo um pouco. Desde as descobertas científicas que deverão moldar o mundo este ano às diferenças entre uma sonata de Beethoven tocada em instrumentos musicais velhos ou modernos. Desde os discursos do presidente do BCE (Mario Draghi), da líder do FMI (Christine Lagarde) ou do secretário do Tesouro americano (Timothy Geithner) à presença dos líderes da Unilever e da General Electric. Tudo isto polvilhado com as famosas festas, que têm conferido a Davos uma aura de exclusividade.

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