Pedidos de ajuda à Deco disparam 60%, afectando quase 22 mil famílias só este ano 
06.12.2011 - 19:37 Por Raquel Almeida Correia
Maioria das pessoas que pede ajuda acumula entre um e sete créditos
(Foto: Paulo Ricca)As dificuldades financeiras provocaram um aumento sem precedentes no número de famílias que recorreram à Deco para lidar com situações de sobreendividamento. Desde Janeiro, a associação recebeu cerca de 22 mil pedidos de ajuda, o que significou um aumento de praticamente 60% face a 2010. E receia-se que este número continue a disparar nos próximos anos, fruto do aumento do desemprego, da subida do custo de vida e das medidas de austeridade anunciadas pelo Governo.
No total, foram 21.832 as famílias que, entre Janeiro e Novembro deste ano, contactaram o Gabinete de Apoio ao Sobreendividamento (GAS), criado pela Deco para ajudar a diminuir a exposição ao crédito e a reequilibrar as finanças pessoais. No mesmo período de 2010, tinham sido recebidos 13.716 contactos pela associação, o que significa que, no espaço de um ano, se registou uma subida de 59,1%.
Do total de famílias que recorreram à Deco, apenas uma parte está a receber apoio efectivo. Isto porque a associação só trata casos em que a situação de sobreendividamento não é causada pelo próprio, mas sim por situações imprevistas, como o desemprego ou a doença. E também porque muitas pessoas só pedem ajuda quando "o processo já está muito avançado e já estão em tribunal ou não há qualquer possibilidade de recuperação", explicou Natália Nunes, coordenadora do GAS.
Feita esta triagem, foram 4008 as famílias que reuniram as condições para receber auxílio, o que, tal como no registo de contactos, também significa um aumento substancial de 50,8% face a 2010. No ano passado, registava-se, até Novembro, um total de 2657 novos processos de acompanhamento. Lisboa é a região mais afectada do país, representando 38,3% do total de 4008 processos abertos este ano. Seguem-se o Norte (30,1%) e o Algarve (9,5%).
Com dívidas e sem trabalho
Da análise feita pela associação, relativa ao mês de Novembro, conclui-se que o desemprego é a principal razão apontada pelas famílias para se encontrarem em dificuldades financeiras, com um peso de 31,4%. Logo a seguir surge a deterioração das condições laborais (21,7%), associada a cortes nas remunerações ou a atrasos no pagamento dos salários, por exemplo. Além destes motivos, a situação de sobreendividamento também é justificada com doença (16,4%) e divórcio ou separação (10,3%).
Conclui-se ainda que a maioria das famílias em dificuldades tem entre um e sete créditos. Mas existe uma franja de 11,8% que acumula entre oito e dez empréstimos por pagar e ainda uma pequena percentagem (3,5%) que ultrapassa os dez créditos. Analisando os contactos recebidos pela associação no último mês, a grande fatia regista um atraso de um a seis meses no cumprimento das obrigações financeiras. Há, no entanto, 2% com demoras superiores a 24 meses.
Casos vão aumentar em 2012
A renegociação com entidades financeiras foi a justificação apontada por mais pessoas (44,4%) para não terem solicitado o apoio mais cedo. Outras 34,5% referiram que tinham confiança na melhoria da situação, o que a coordenadora do GAS considerou surpreendente. "É uma questão cultural e de falta de literacia financeira. Chega a ser constrangedor estas pessoas acharem que a situação pode melhorar", afirmou Natália Nunes.
A responsável também se mostrou preocupada com os hábitos de poupança destas famílias, já que 79% admitiram que são reduzidos. E menos de metade tem como rotina elaborar um orçamento familiar todos os meses. "O país está numa situação difícil e as pessoas vêm ter connosco com a ideia de que não é possível poupar, porque o dinheiro não chega. Tentamos convencê-las do contrário, porque é precisamente por estarmos neste momento de instabilidade que temos de ser mais responsáveis com a forma como lidamos com o dinheiro", disse.
Natália Nunes acredita que "o próximo ano vai ser muito mais complicado", prevendo que os pedidos de ajuda "vão continuar a aumentar". Em 2011, deparou-se "com casos muito delicados de casais sem trabalho e com menores a cargo". Mas adivinham-se tempos ainda mais difíceis. "O desemprego, os cortes salariais e dos subsídios e o aumento do IVA vão deixar muitas famílias em risco", rematou a coordenadora do GAS, acrescentando que o gabinete tem conseguido recuperar 80% dos casos de sobreendividamento que trata.


