Políticos deviam estudar impacto das medidas que tomam, diz Ricardo Salgado 
29.03.2011 - 18:24 Por Cristina Ferreira, em Londres
Salgado alerta que programas de ajuda à Grécia e à Irlanda "funcionaram mal"
(Enric Vives-Rubio/arquivo)“A crise política precipitou a revisão em baixa das agências do rating [capacidade que o país e as instituições têm de honrar os seus compromissos com os credores] à República e aos bancos e criou uma situação no país muito complicada”, defendeu Ricardo Salgado, presidente do BES, durante um encontro com os jornalistas em Londres para apresentar a actividade do BESI na capital britânica.
“Quem diz que os rating da República portuguesa e dos bancos também cairiam caso o PEC IV tivesse sido aprovado não sabe o que diz, pois não é verdade. E basta ler os fundamentos das decisões das agências de rating”, observou Ricardo Salgado.
O CEO do BES afirma não ter “dúvidas que a evolução dos mercados [após o chumbo do PEC IV e a queda do Governo] foi de tal ordem que requer que os políticos se debrucem sobre a forma como os mercados evoluíram e que estudem o impacto das medidas que tomam”.
Em Espanha, observou, apesar do desgaste de Zapatero, a oposição apoiou as medidas de austeridade do Governo.
Sem maioria, Cavaco deve optar por Governo de coligação
O presidente do BES diz que é possível que Portugal escape à intervenção europeia/Fundo Monetário Internacional (FMI), nomeadamente nos moldes actuais (Grécia e Irlanda), caso o país continue a obter liquidez para financiar a economia.
“Se continuarem a ser facultados meios para dar liquidez [à] economia, é possível que Portugal ganhe tempo para evitar a intervenção”, defendeu.
Mas para tal, segundo o presidente do BES, é essencial que as próximas eleições “sejam rápidas” e que, caso não haja maioria absoluta, “o Presidente da República venha a optar por um Governo de coligação.” Talvez assim seja “possível que Portugal consiga negociar” um apoio sem FMI.
“Há quem defenda que não se deve diabolizar o FMI? Eu também acho. Mas até lá se chegar, e se isso [a intervenção] acontecer realmente, há um conjunto de consequências sobre a economia que são provocadas pela incerteza em que o país ficou com este vazio político”.
“Há muita especulação [sobre a vinda do FMI], e é legitima atendendo à situação política em que o país se encontra”, disse Salgado.
“Mas os principais partidos reuniram com o Presidente da República e garantiram que em caso de formar Governo aceitariam cumprir as metas orçamentais negociadas com Bruxelas anteriormente [por José Sócrates].” E isto deverá acalmar os mercados. “Pareceu-me uma perda de tempo não se ter aprovado o PEC [PSD e PP] e depois ir a seguir reafirmar o cumprimento dos objectivos orçamentais”.
O PEC IV é uma imposição do centro europeu, recorda Salgado, e “hoje quem está de alguma [forma] a orientar a nossa política de endividamento é o centro europeu, ou seja Bruxelas, e não Portugal”.
“Tenho a esperança de que tenha havido a percepção de que os programas na Grécia e na Irlanda funcionaram mal”. “Na Grécia os prazos [de pagamento ao fundo] foram alargados e na Irlanda não, porque quiseram manter a taxa de IRC em 12 por cento.”
O presidente do BES nota que os programas europeus “estão agora a evoluir para uma situação que ninguém sabe qual é”, mas que poderão ser mais flexíveis e ter em conta as condições dos países e as suas necessidades de crescimento económico.
Salgado concluiu: No século XX, Portugal, ao contrário de outros países europeus, onde se registaram vinte situações de falência, não entrou em defaulth o que apenas aconteceu em 1890. “É extraordinário, pois sempre pagámos as nossas dívidas, espero que se possa dizer o mesmo sobre o século XXI”.
A jornalista viajou a convite do BES


