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"Portugal deveria usar a ameaça de default para pedir juros mais baixos ao fundo europeu"

10.02.2011 - 07:54 Por Ana Rita Faria

<p>Países periféricos devem usar a reestruturação da dívida para pressionar a Europa</p>

Países periféricos devem usar a reestruturação da dívida para pressionar a Europa

 (Foto: Enric Vives-Rubio)
Especialista diz que é "altamente provável" que o país siga os passos da Irlanda, que, apesar de dizer que não precisava de ajuda, teve de ser intervencionada.

Para onde está a evoluir a crise da dívida europeia?
Sou tentado a fazer comparações com a crise da dívida na Argentina. Nos final dos anos 90, o país estava a fazer tudo o que o FMI queria, impondo austeridade, empurrando a economia para a recessão, até que houve uma eleição e alguém decidiu que aquilo não resultava e que o país devia entrar em default (incumprimento no pagamento da dívida). Receio que haja o risco de acontecer exactamente o mesmo na Europa. Tenta-se impor austeridade orçamental para sair do buraco, mas, a certa altura, percebe-se que isso não é suficiente, porque há muito dívida no sector privado.

É por isso que as taxas de juro dos países que recorreram ao fundo de resgate europeu - Irlanda e Grécia - não baixam?
Sim, mas é também o facto de os mecanismos de resgate não serem concebidos para resolver um problema de solvência, mas sim de liquidez. Os políticos europeus têm estado a fingir que estes países apenas têm um problema de liquidez: basta dar-lhes tempo que eles vão sair da crise. Só que isso é ainda mais improvável com as taxas de juro que estão a pagar nos empréstimos do FMI e da UE.

Há uma grande probabilidade de os países periféricos entrarem em default?
Sim, é muito provável.

Já este ano?
É possível que sim, mas é mais provável em 2012 ou 2013. Se um país entrasse agora em default, o financiamento dissipar-se-ia, obrigando a alinhar as despesas com as receitas do dia para a noite. Comparados com isto, os cortes feitos hoje em dia são muito pequenos. O que os governos costumam fazer é, pois, ir reduzindo o défice através de cortes na despesa ao longo de vários anos e, um dia, entrar em default, depois de já ter conseguido reduzir o défice. Se for tudo previamente combinado, e a União Europeia se comprometer a continuar a disponibilizar financiamento, o default pode acontecer mais cedo e penso mesmo que haveria vantagens de alguns países, como a Grécia, já o terem feito. Mas isto é contestado pelo resto da UE devido ao efeito de contágio que criaria no sistema bancário europeu.

Considerando as altas taxas de juro da dívida portuguesa, Portugal deveria recorrer à ajuda europeia e do FMI?
Se concluir que tem um problema de solvência e não de liquidez, não vale a pena pedir emprestado mais dinheiro a taxas de juro cada vez mais altas, porque nunca se terá capacidade para pagar. Tem de se proceder à reestruturação de dívida. Mas Portugal ainda não concluiu que precisa disso e, mesmo que o fizesse, o resto da UE iria provavelmente opor-se. Por isso, o melhor é os países periféricos usarem a reestruturação da dívida para pressionar a Europa, dizendo: têm de nos emprestar dinheiro com juros mais baixos, caso contrário nunca iremos escapar a um default. Acho que Portugal deveria usar a ameaça de default para pedir juros mais baixos ao fundo europeu.

Mas acha que Portugal irá pedir ajuda?
O que vimos na Irlanda foi o país a dizer sempre que não precisava de ajuda e, um dia, o BCE chega e diz que precisa de ajuda, porque o sistema financeiro não se pode financiar a ele próprio e o BCE já não quer apoiar bancos insolventes. É altamente provável que o mesmo aconteça a Portugal e a Espanha, onde os bancos são cada vez mais dependentes do BCE. Mesmo que o Governo consiga aceder aos mercados, os bancos têm dificuldades em fazê-lo.

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11.02.2011 19:02