Portugal venceu uma batalha mas não afastou necessidade de recorrer à ajuda externa 
13.01.2011 - 07:26 Por Ana Rita Faria
O Estado português conseguiu saltar uma barreira sem tropeçar, mas tem toda uma corrida de obstáculos pela frente.
Apesar da primeira emissão de dívida de médio e longo prazo do ano ter sido bem sucedida, registando maior procura e uma descida dos juros nas obrigações do Tesouro a dez anos, os analistas não acreditam que a pressão dos mercados fique por aqui ou que o recurso à ajuda externa esteja fora de questão.
A emissão de ontem "foi uma barreira que foi ultrapassada de um conjunto de barreiras que se vão deparar à economia portuguesa nos próximos meses", salienta Cristina Casalinho, economista-chefe do BPI. De acordo com o Orçamento do Estado para 2011, o Estado precisa de emitir mais 38 mil milhões de euros de dívida até ao final do ano, não só para satisfazer as novas necessidades de financiamento, mas sobretudo para amortizar a dívida que vence este ano.
Para os analistas contactados pelo PÚBLICO, a performance da dívida portuguesa estará dependente de um conjunto de ingredientes que, nesta primeira emissão de obrigações do Tesouro, se conjugaram favoravelmente.
Um deles foi o anúncio do Governo de que o défice orçamental seria, afinal, inferior ao previsto (7,3 por cento) em 2010 e de que há uma folga orçamental de 800 milhões de euros no Orçamento do ano passado. Outro é o consenso entre os líderes europeus em torno da necessidade de salvaguardar a união da zona euro.
"O que fez com que Portugal estivesse muito próximo do abismo foi a falta de perspectivas de entendimento na zona euro para salvar Portugal e as desconfianças quanto à execução orçamental do Governo", considera Diogo Teixeira, administrador da Optimize. O responsável da gestora de activos acrescenta que o facto de os líderes europeus terem demonstrado que iriam ajudar Portugal se fosse necessário e a notícia de que o Governo "fez o trabalho de casa" ao reduzir o défice suavizaram a pressão dos mercados e afastaram o risco de o país ter de pedir ajuda imediatamente. "Ganhámos algum tempo, mas isso não quer dizer que estamos fora da zona de risco", conclui, salientando que os maiores testes à capacidade de Portugal se financiar surgirão em Março, mês em que o país terá de fazer "reembolsos significativos de dívida de médio e longo prazo".
BCE sustenta procura
Já Filipe Silva, gestor do mercado da dívida no Banco Carregosa, considera que, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) continuar a comprar dívida dos países periféricos, Portugal tem alguma margem de manobra. "Uma emissão mal-sucedida seria aquela em que não conseguíssemos emitir dívida por não termos a quem vender, como aconteceu na Grécia", salienta o analista.
Mas, além de a ajuda do BCE não ser eterna, as taxas de juro cobradas no leilão de ontem permanecem a níveis muito elevados e são, no médio prazo, insustentáveis. "Portugal continua a pagar muito para se endividar e, por isso, uma possível intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) não está afastada. Aliás, acho mesmo que continuamos mais perto de recorrer à ajuda externa do que o contrário", defende o gestor do Banco Carregosa. A única escapatória possível é "mostrar que o PEC III está a funcionar e provarmos que vamos dar a volta às contas públicas, contendo as despesas e reduzindo o défice" para os 4,6 por cento do PIB este ano.
A pressão aumentou sobretudo no passado fim-de-semana, depois de a imprensa internacional ter noticiado que a França e a Alemanha estariam a pressionar Portugal a seguir o mesmo caminho da Grécia e da Irlanda, ou seja, pedir ajuda a Bruxelas e ao FMI, desde logo para evitar um contágio à Bélgica e à Espanha.
A ministra das Finanças francesa, Christine Lagarde, voltou ontem a negar que haja alguma "conspiração da França e Alemanha para forçar Portugal" a pedir ajuda do Fundo Europeu de Estabilização Financeira. Já a chanceler alemã, Ângela Merkel, aproveitou para voltar a tranquilizar os mercados, ao garantir que "a Alemanha vai fazer o que for necessário para que o euro permaneça estável".


