Presidente do BEI: "Portugal e Irlanda são totalmente diferentes" 
23.11.2010 - 07:48 Por Sérgio Aníbal
O presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI) esteve no final da semana passada em Lisboa para assinar os contratos para dois empréstimos a Portugal, a taxas bastante mais baixas do que as praticadas actualmente pelos mercados.
Vai emprestar dinheiro ao Estado português com taxas de 3,6 por cento a 25 anos, quando os mercados pedem quase sete por cento a 10 anos. O que é que o leva a estar tão confiante em Portugal?
Estamos totalmente confiantes. Não temos qualquer dúvida de que vamos ser reembolsados. No BEI, há um director de risco e, se houvesse dúvida relativamente à capacidade do país para pagar as suas dívidas, os empréstimos não seriam aprovados.
Portanto, são os mercados que estão a exagerar?
Sem dúvida.
E por que é que acha que isso acontece?
Há muitas razões. A interpretação que foi feita das declarações de Angela Merkel sobre o fundo permanente provocou uma subida dos spreads. Mas foi uma má interpretação. O que a Alemanha propõe é que qualquer penalização aos investidores apenas seria aplicada aos títulos comprados depois das alterações.
Mas, no actual cenário, teria sido bom que houvesse uma total clareza nas intenções...
É óbvio que temos de ser claros. É uma lição que fica para o futuro.
Acha que, depois do recurso ao fundo de emergência por parte da Irlanda, Portugal pode ter de fazer o mesmo?
Não gosto quando se junta a Irlanda e Portugal no mesmo saco. São situações completamente diferentes. A Irlanda tem um sector bancário que é demasiado grande para a dimensão do país. Não encontramos o mesmo problema em Portugal. E Portugal está no bom caminho no que diz respeito à consolidação orçamental. O problema do país é mais de competitividade, sendo necessário reformas que demoram tempo.
Os mercados parecem não querer esperar...
Estão muito impacientes, é verdade, mas confio que, ao verem as medidas que estão ser tomadas, acreditem que vão ser aplicadas. Portugal, no passado, já mostrou que consegue implementá-las.
O BEI, ao longo dos anos, emprestou muito dinheiro ao Estado português para que este investisse em infra-estruturas. Foi uma boa aposta?
De 1976 a 2009, os empréstimos para transportes e telecomunicações representaram 49 por cento do total. Acho que foi necessário. É importante para o desenvolvimento de uma economia. Mesmo o Banco Mundial agora defende isso.
Agora, nesta fase de acesso difícil ao financiamento, deve manter-se a mesma lógica?
Nos últimos anos, os empréstimos já têm ido mais para outros sectores, para o sector privado, para o I&D.
Mas continuam a apoiar várias obras na área dos transportes em Portugal. Acham que todos os projectos são economicamente viáveis?
Só financiamos os projectos após uma análise em que somos bastante conservadores. E exigimos que sejam economicamente viáveis.


