PSI20

A primeira ronda de Carvalho da Silva pela greve geral

Uma greve dos que ganham menos e dos mais qualificados

24.11.2010 - 04:58 Por Sofia Lorena

<p>Coletes vermelhos da CGTP</p>

Coletes vermelhos da CGTP

 (Nuno Ferreira Santos)
Bombeiros, trabalhadores da recolha do lixo, oficiais da marinha mercante, enfermeiras. Gente a fazer greve pela primeira vez, gente com muitas greves já para contar. Todos têm razões pessoais para estar hoje de greve, mas também todos dizem ter decidido aderir por razões que são de todos.

Cláudia Madeira tem 31 anos e já fez várias greves. É funcionária sindical há oito anos e começou esta greve mesmo no arranque, às 20h00 no aeroporto da Portela. “Há uma falta de respeito por quem trabalha. Ouvimos tanta gente a reclamar… Esta é uma oportunidade única para deixar de refilar só nos cafés e na rua e dizer ao Governo que a coisa está mal e não pode continuar”, disse, esperançada numa grande adesão.

Uma greve geral “tem muitas dimensões e uma delas é a de ser um grito”, disse na Portela o secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva. Pouco depois, era dado o grito: “A greve geral começou.” Foi com estas palavras que os membros do piquete de greve dos bombeiros sapadores de Lisboa receberam a notícia dada por Carvalho da Silva de que no primeiro turno de bombeiros de serviço ao aeroporto dez dos onze trabalhadores fizeram greve.

Nesta altura, ainda o aeroporto de Lisboa funcionava normalmente. Havia amigos a abraçar amigos e famílias sentadas nos bancos corridos diante da porta que se abre a cada chegada. Mas o painel que indica os voos previstos começava já a pintar-se de vermelho, com muitos voos cancelados, todos os que deveriam aterrar a partir das 21h15. “Viva a greve geral, a ofensiva é brutal”, gritava-se do lado de fora.

Cláudia Pacheco, 31 anos e dois filhos, é funcionária administrativa da câmara e resolveu ir fazer companhia a uma colega que é delegada sindical e que passou a noite centro de recolha de lixo dos Olivais. “Não nos aumentam. Eu tenho um salário base de 530 euros. Trabalho na câmara há 12 anos e só fui aumentada duas vezes”, queixou-se. “Gostava de ver o primeiro-ministro sustentar-se com mil euros”, disse, em referência ao seu salário somado ao do marido, funcionário público.

Um colete azul e um fura greves

O primeiro turno a apanhar o dia da greve no centro de recolha dos Olivais começava às 22h30, altura em que Carvalho da Silva tinha previsto passar por lá. Dezenas de trabalhadores já se juntavam antes à entrada, vestidos à civil alguns, outros com os coletes vermelhos do piquete da greve. Ao fundo de uma rampa viam-se os camiões do lixo, todos alinhados e parados.

Quando Carvalho da Silva-se chegou já se juntavam aos coletes vermelhos da CGTP outros coletes da mesma cor mas da outra central sindical, a UGT. De colete azul, onde se lia “LGBT Solidários com a Greve”, surgiu António Serzedelo, presidente da Opus Gay, que veio “em solidariedade com os LGBT desempregos e precários” e acabou a fazer tradução simultânea numa entrevista do secretário-geral da CGTP à Associated Press.

Há um motorista que decidiu trabalhar. “Mas ele vai mesmo?”, perguntaram os colegas uns aos outros. “Sozinho?”. Assim foi. Sozinho desceu a rampa até ao parque de estacionamento dos camiões. Sozinho afastou um carro para poder fazer passar o seu. Um grupo de mulheres delegadas sindicais preparou-se para fazer um cordão e impedir o carro de passar, mas o motorista escolheu outro caminho. “Nem tem coragem de sair à frente dos colegas. Vai sair lá em baixo, há outro caminho”, explicou Libério Domingos, coordenador da União dos Sindicatos de Lisboa. Saiu assim um camião dos 115 que dali partem todas as noites.

“Há colegas que não respondem por eles. Se virem que são muitos, fazem, antes não se decidem. Eu não sou assim, podem ir 99 trabalhar, o 100 sou eu que não vou”, disse-nos Bernardo, de 48 anos, 12 como motorista dos camiões do lixo, quando lhe perguntámos se as conversas dos colegas indicavam uma grande adesão. “Eu percebo, o dinheiro faz falta a toda a gente. Mas se a coisa correr bem, este dia de trabalho que perdemos vamos recuperar, não é?”

Palavras de ordem em buzinas

Ao contrário do que acontecera na Portela, onde Carvalho da Silva falou aos bombeiros presentes no piquete de greve à frente de toda a gente, aqui os delegados sindicais pediram aos jornalistas para deixar o secretário-geral aproximar-se dos trabalhadores e falar só com eles. “O pessoal fica intimidado”, disse Libério Domingos. E assim aconteceu a conversa, em privado e em voz baixa, enquanto alguns funcionários aproveitavam para fotografar o secretário-geral com os seus telemóveis.

Na estrada passaram alguns carros que com as buzinas ensaiavam o tom das conhecidas palavras de ordem “CGTP Unidade Sindical”. Foi o mais próximo que aconteceu de vivas à greve.

Ao contrário dos funcionários da câmara de Lisboa que se juntaram nos Olivais, Dulce Cruz, primeiro piloto da marinha mercante, diz que não sente a crise na carteira. “Não sinto porque tenho emprego. Mas quem tem salários mais baixos sente e muito. Quem ganha o ordenado mínimo e tem de pagar mais IVA ou se arrisca a perder subsídios como o abono de família”, enumera. Esta oficial faz greve “por causa dos cortes em curso na função pública, do aumento dos impostos” e por viver num país em que “o usufruto dos descontos não se vê”.

A primeira ronda de Manuel Carvalho da Silva pela greve geral de hoje durou pouco mais de cinco horas mas permitiu ao secretário-geral da CGTP ir tirando algumas conclusões. Por exemplo, que esta é uma greve transversal, que inclui precários e “trabalhadores menos e mais qualificados”, como Dulce Cruz.

Um grito de indignação

“É preciso reagir às injustiças. É preciso um grito de indignação contra as injustiças e que esse grito atravesse várias camadas de trabalhadores. Há um risco de que os que ganham menos fiquem marginalizados. Mas outro problema é a possibilidade dos mais qualificados se desmotivarem”, disse Carvalho da Silva aos grevistas que se reuniram no Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos de Paço de Arcos.

O secretário-geral da CGTP saiu a correr de Paço de Arcos para tentar chegar antes da meia-noite à subestação número 1 do Metro de Lisboa, um centro de controlo de tráfego junto à estação do Parque. Mais de 150 pessoas estiveram ali reunidas, num piquete de greve animado que para além de Carvalho da Silva recebeu a visita do líder do PCTP-MRPP, Garcia Pereira, do secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, e do candidato do seu partido às eleições presidenciais, Francisco Lopes.

Hélder Guerreiro tem 35 anos e é agente de tráfego, o que significa que trabalha nas bilheteiras da estação do metro, há um ano. Esta é a sua primeira greve: “Antes estava no sector automóvel. Estive sempre em situação precária, contratos de seis meses. Era impensável fazer greve nessa situação”. Para além do aumento do IVA e dos cortes nos descontos que se podem fazer no IRS, Hélder Guerreiro e o colega Filipe Pereira, operador comercial, referem que na sua empresa se discutem agora possíveis reduções salariais, de 20 a 25 por cento, consoante os rendimentos.

É por isso mesmo que os chefes sindicatos ali presentes aproveitam a presença de Garcia Pereira para lhe pedir um parecer sobre a eventual redução de salários. O dirigente político que é também advogado vai fazê-lo. E explica que passou pelo metro esta noite para se solidarizar especialmente com estes trabalhadores que “têm uma grande experiência de luta e são os únicos, no sector dos transportes, que já resistiram a uma tentativa de requisição civil por parte da empresa”.

De greve pelas outras

Uma greve geral tem muitas dimensões e fazer greve pode ser também um acto de solidariedade. Raquel Rosa, uma enfermeira solteira e sem filhos, trabalha no Hospital Garcia da Horta de Almada, a última paragem de Carvalho da Silva na sua primeira ronda pelos serviços em greve. Aos 28 anos, Rosa não se queixa do salário nem das suas condições de trabalho, mas queixa-se da situação em que vive a mãe, também enfermeira no Garcia da Horta. “Tem 51 anos e já não devia fazer noites, mas faz noites e fins-de-semana para ganhar alguma coisa mais. Da base recebe 580 euros”, afirma.

Como a sua mãe, acrescenta, Rosa “há muitas” outras enfermeiras. “Eu trabalho com elas, vejo-as todos os dias. Tenho colegas que trabalham em dois sítios e têm vidas muito, muito complicadas.”

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