Vítor Bento: “A única liberdade que temos é de continuar a pedir emprestado” 
22.03.2010 - 14:55 Por Lusa
O presidente da SIBS, Vítor Bento, afirmou hoje que a única liberdade que Portugal tem actualmente “é de continuar a pedir emprestado” por força do caminho que escolheu, considerando imperioso pelo menos estabilizar o crescimento da dívida pública.
“Vamos continuar a depender dos credores, vamos ter de continuar a satisfazer as exigências dos credores. Podemos achar as condições injustas, ou que não deviam ser estas. Mas nós não temos condições de lhes impor a eles condições. Eles têm a liberdade de nos emprestar ou não emprestar, nós não temos essa liberdade. Nós, por força do caminho que escolhemos, a única liberdade que temos é de continuar a pedir emprestado”, disse.
O economista, que apontava o problema da dívida pública e externa como um dos pontos fulcrais da economia, considerou que, para “sossegar os credores” e “convencê-los a emprestar”, a solução passa por, “pelo menos, conseguir estabilizar o rácio entre a dívida e o que produzimos internamente”.
Vítor Bento, que falava numa conferência promovida pelo Jornal de Negócios que decorre na Faculdade de Direito, comparou ainda o mecanismo da dívida com um “pacto faustiano”: com a dívida contraída a crescer fortemente, “mais cedo ou mais tarde, o Diabo vem cobrar o seu preço”. “É o que nos está a acontecer agora”, disse.
Portugal tem a maior dívida externa líquida da UE
“Nós somos o país da Europa que tem a maior dívida externa líquida em percentagem do PIB, neste momento. No final de 2009 era cerca de 110 por cento do produto. Esta é a líquida, a bruta é de cerca de 250 por cento”, acrescentou.
Vítor Bento explicou que, com a crise, muitos países aumentaram as suas dívidas para níveis elevados e começa a ser mais escassa a capacidade do mercado para satisfazer todas as necessidades de financiamento. Com maior número de países com dívidas muito elevadas, aumenta também a probabilidade alguém não pagar.
“Os credores e os analistas, perante este aumento da probabilidade de que alguém não vai pagar, vão individualmente analisar quem é que tem mais probabilidade de não pagar, e aí, por razões mais ou menos óbvias, nós ficamos nesse radar, e portanto nós tornámo-nos num foco de atenção”, explicou.
Vítor Bento explicou que, com a integração na zona euro (passando para o Banco Central Europeu as direcções da política monetária) os países deixaram de ter ao seu dispor o aumento do dinheiro em circulação como forma de pagar as suas dívidas, sendo que antes dessa altura “as pessoas ficavam com a ilusão de que haveria sempre dinheiro para pagar”.
Agora, “nós só podemos ter novos empréstimos se alguém nos emprestar. Esta é que é uma realidade nova (...) Deixando de haver a rotatividade do banco central, é preciso que nos queiram emprestar, e para nos quererem emprestar é natural que nos imponham condições”, disse o economista.


