Opinião

Mercados, políticas e o euro

04.07.2011 - 15:47

Uma das mais memoráveis observações sobre a crise financeira foi feita pela chanceler alemã Angela Merkel, em Maio de 2010, quando declarou que, "em certa medida, é uma luta entre a política e os mercados. Temos de restabelecer a primazia da política sobre os mercados".

Embora invulgarmente directa, esta formulação faz eco de uma percepção existente em toda a Europa. Movimentos desordenados dos mercados - como, por exemplo, os sucessivos aumentos dos custos dos empréstimos obtidos pela Grécia - estão a ser bastante censurados pelos líderes políticos que culpam os especuladores, incitados pelos seus duvidosos comparsas, as agências de notação de risco.

Esta apreciação é natural, mas também leva a conclusões erradas. Traduz séculos de relações instáveis entre líderes políticos e financeiros, quer na Europa quer nos Estados Unidos, relações que oscilam entre uma excessiva proximidade e um excessivo antagonismo - por vezes em simultâneo. Desde a revolução antibanqueiros de Frei Savonarola em Florença, em 1494, até ao esmagamento, por Luís XIV, do superintendente das finanças de França, Nicolas Fouquet, em 1661, e à destruição pelo Presidente Andrew Jackson do Segundo Banco dos Estados Unidos, em 1833, é um tema recorrente da história do Ocidente. Ao mesmo tempo, a retórica anti-especulador não se adequa bem aos factos da crise do euro. Os investidores do mercado obrigacionista são movidos mais pelo medo do que pela ganância. O problema, agora, é que são demasiado poucos os investidores que querem comprar dívida soberana da periferia da zona euro, e essa "greve de compradores" deve-se mais à incerteza económica e de políticas do que à manipulação de mercados, nas mãos de agentes económicos pouco éticos do sector privado. Isto não quer dizer que a comunidade financeira seja imune a conflitos de interesses ou a correr riscos imprudentes, mas tão-somente que não são estes os problemas no centro da crise.

Mas a observação sarcástica da chanceler alemã traduz também tensões inerentes nas instituições da União Europeia de hoje. A integração na UE não só cria uma máquina supranacional de tomada de decisões, que é estruturalmente entravada pelo seu défice democrático, como também retira poderes aos líderes nacionais num leque cada vez maior de questões, incluindo a maior parte das políticas dos mercados financeiros que obedecem agora, principalmente, à legislação da União Europeia, e cuja supervisão estará cada vez mais a cargo da recentemente criada Autoridade Europeia de Supervisão. Como disse o cientista político Ivan Krastev, a Europa tem cada vez mais políticas sem política ao nível da UE, e política sem políticas ao nível nacional. Esta dissonância cria uma atmosfera de instabilidade propensa a acidentes.

Os efeitos são bem visíveis na crise do euro. O actual contexto coloca no centro das decisões da UE um país, a Alemanha, de cuja solidez fiscal não há memória de que os investidores em títulos alguma vez tenham duvidado. A Alemanha também já não possui um centro financeiro internacional no seu território, uma vez que a maior parte das actividades de mercado grossista dos seus grupos financeiros migraram para Londres. E o sistema bancário alemão encontra-se dominado por distorções no mercado, idiossincrasias e interdependências com as estruturas políticas a nível local. Consequentemente, falta à maior parte dos governantes alemães aptidões de gestão de crise financeira baseadas na sua própria experiência passada. Na medida em que têm diálogo com o sector financeiro, os seus negócios são com banqueiros e não com investidores; e esses banqueiros possuem fortes interesses próprios, o que torna o seu aconselhamento tudo menos neutro.

Em suma, a moldura de políticas internas dos líderes alemães e a memória colectiva dos seus concidadãos não os ajudam a lidar com os actuais desafios da gestão da crise do euro. Observadores de negociações europeias poderão argumentar que isso é parcialmente atenuado pelo contributo da França, na medida em que o ministério das Finanças francês parece ter mantido mais clarividência financeira, pelo menos no que diz respeito a questões da dívida soberana. Talvez isso se deva a memórias relativamente recentes de ter ficado sob forte pressão do mercado, como aconteceu durante a crise de 1992-93 da moeda europeia, bem como a experiência que advém da presidência do Paris Club, que coordena as discussões dos países ricos sobre questões de dívida soberana. Mas qualquer destes efeitos continua a ser manifestamente insuficiente para colmatar a falha entre as questões da UE que precisam de ser resolvidas e as dinâmicas políticas nacionais em que se articula a resolução. Nas últimas semanas, a confusa comunicação pública dos líderes europeus sobre a reestruturação da dívida grega - redefinição, prorrogação e/ou a participação do sector privado -, provocou mais volatilidade prejudicial nos mercados do que qualquer lesiva descida do rating poderia desencadear.

Para que as decisões sobre políticas sejam racionais, esperar-se-ia que os líderes europeus que operam ao nível da UE tivessem em consideração todos os grupos accionistas que influenciam os resultados. Mas com as actuais instituições, os incentivos são para que concentrem as atenções no eleitorado dos seus países, em detrimento de todos os outros. Enquanto isso acontecer, é natural que os líderes alemães vejam os investidores de títulos como as forças estrangeiras hostis, em vez de como um grupo que precisa de ser, de algum modo, envolvido no processo de tomada de decisões. Deste ponto de vista, a crise do euro é tão institucional como financeira ou fiscal, e isso faz com que a sua solução seja ainda mais difícil.

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