Imprensa estrangeira refere esta manhã a inevitabilidade do recurso ao FMI 
07.04.2011 - 08:20 Por Lusa, PÚBLICO
Primeira página do diário espanhol Público
(DR)A imprensa estrangeira acordou hoje com Portugal em muitas das primeiras páginas e editoriais, comentando a inevitabilidade do recurso do país ao FMI, ontem anunciado pelo primeiro-ministro.
O diário Libération, sem chamar o tema para a primeira página, noticia na secção de Economia que “o governo português fará finalmente apelo à União Europeia, o que era excluído até ontem [quarta-feira]”.
Também o jornal Le Monde salienta que, “após ter recusado durante vários meses a decidir-se, Portugal fez oficialmente apelo ao mecanismo europeu de financiamento, para ajudar o país a sair da tempestade financeira criada pela sua dívida pública”.
O Fígaro coloca a decisão do primeiro-ministro português, José Sócrates, no cabeçalho da edição de hoje, resumindo a situação com o título “Portugal constrangido a pedir ajuda à Europa”.
Em página interior, o jornal escreve que “é oficial. Portugal transmitiu um pedido de ajuda à União Europeia”. José Sócrates “decidiu finalmente ‘em nome do interesse público’, depois de resistir durante semanas”.
É também o Fígaro que sublinha o papel da banca portuguesa, referindo que “os grandes estabelecimentos pediam um ‘empréstimo intercalar’ junto da União Europeia, de 10 a 15 milhões de euros, o que permitiria aguentar até às eleições de 5 de Junho. Esta solução foi rejeitada na quarta-feira por Berlim”.
O diário Les Échos, num longo artigo de análise da reunião do Banco Central Europeu prevista para hoje, escreve que “os países periféricos da zona euro não serão mais a prioridade das autoridades monetárias”.
O diário financeiro francês acrescenta que “a reunião do BCE arrisca-se a marcar uma viragem para os países periféricos. A alta de juros vai fragilizá-los mais do que aos países no ‘centro’ da zona euro”.
Já a imprensa britânica comenta também que era “inevitável” o pedido de assistência financeira à Comissão Europeia anunciado pelo Governo português, decisão que é vista como uma vitória para os bancos.
O Guardian, em editorial, compara o país a “um morto-vivo desde que o primeiro ministro se demitiu a 23 de Março”, tendo José Sócrates demorado duas semanas a “aceitar o inevitável”.
“Se a situação tivesse continuado, Portugal teria necessitado de pedir emprestado a um montante crescente de financiadores só para pagar os juros que lhes devia”, justifica.
No diário The Times lê-se que o país deve “engolir o orgulho” porque “não havia alternativa” perante um governo fraco e uma economia de baixo crescimento.
A notícia do resgate, escreve o colunista Roger Boyes, vai ser bem recebida pelos mercados por ser considerada uma forma de estancar a crise.
Para o Financial Times, esta foi uma vitória dos bancos, depois de estes terem ameaçado com uma retirada do mercado de obrigações.
Em editorial, diz que Lisboa devia ter tentado resistir, alegando que um pedido já pode assustar os mercados e dificultar as negociações das condições do resgate.
“A altura certa para pedir um resgate externo teria sido no final do debate nacional”, diz o jornal financeiro, que tem a situação portuguesa na primeira página.
“A campanha eleitoral oferecia aos políticos portugueses uma oportunidade de explicar ao público o que precisa de ser feito e alcançar esse mandato”, acrescenta.
Destaque para a situação da economia portuguesa também nos jornais em Espanha, com a imprensa generalista e económica, em papel e online, a dedicar as manchetes ao tema, descartando no geral o efeito de contágio.
Além da manchete, na qual salienta que “Portugal solicita o resgate da UE”, o jornal El País destaca o facto de a “banca espanhola possuir mais de 75 mil milhões de euros em créditos e outros activos”.
“Grécia, Irlanda e agora Portugal”, escreve o El Pais, que destaca a crise política e o agravamento dos juros da dívida como os antecedentes do resgate anunciado e que estima poderá alcançar os 75 mil milhões de euros. “Esse valor coincide exactamente com o risco da banca espanhola em Portugal”, refere o jornal, que dedica três páginas ao assunto.
O diário El Mundo refere que “Portugal pede à UE o resgate, depois dos seus bancos lhe fecharem a torneira”.
Segundo o jornal, “a pressão de Espanha e França também contribuiu para vergar a resistência lusa”, tendo os dois países “recusado conceder empréstimos bilaterais mais flexíveis”.
“Numa tentativa de evitar a humilhação, o Governo português lançou uma proposta de pedido de empréstimos bilaterais para conseguir crédito a curto prazo, por uma quantidade pequena e com menos condições que o resgate da Zona Euro”, escreve.
“Mas a França, a Espanha e a Comissão Europeia, entre outros, deixaram claro ontem [quarta-feira] que essa não era a via”, sublinha.
O conservador ABC dedica a manchete ao pedido de resgate nacional, considerando que “Portugal não aguenta a pressão e pede ajuda ao fundo de resgate” enquanto o La Razon também se refere ao valor de 75 mil milhões de apoio.
“Portugal cai e solicita o resgate”, lê-se no título que serve de legenda à foto de um ‘broker’ num “banco português”, não identificado, a olhar para ecrãs com indicadores dos mercados.
No caso do Público, à esquerda, quase toda a primeira página é preenchida por uma foto de José Sócrates, marcada por uma das frases do primeiro-ministro: “Não tomar esta decisão acarretaria riscos que o país não pode assumir”.
O jornal refere ainda que “os bancos portugueses pressionaram o Governo depois de se negarem a comprar mais emissões” de dívida, e noticia que “os ministros de Economia da UE estudam amanhã [sexta-feira] o resgate financeiro”.
O assunto domina as manchetes também nos económicos, com o Expansion, o Cinco Dias e o El Economista a darem ampla cobertura à situação em Portugal.
“Portugal rende-se e solicita um resgate financeiro aos seus parceiros na zona euro”, escreve o Expansion, afirmando que “Espanha afasta-se do contágio no momento mais oportuno” e considerando que esta é “uma decisão forçada pela UE, a oposição e a banca”.
Os bancos portugueses, considera o jornal, “foram os últimos a pressionar o primeiro-ministro a pedir ajuda”, depois do “golpe derradeiro” das agências de “rating”.
Também o Cinco Dias diz que “Portugal se rende à necessidade de pedir o resgate” com “o grito de socorro a soar às 18h02”, notando que “Bruxelas considera que o risco de contágio a outros países é agora praticamente nulo”.
A “tranquilidade de Bruxelas”, escreve o jornal, “baseia-se na evolução dos diferencias de rendimento dos títulos de países como a Espanha, Bélgica e Itália, em relação aos títulos alemães, que caíram ou se mostraram praticamente intactos nos últimos dias sem acusar o iminente resgate de Portugal”.
Menos presente na imprensa italiana, que dedica hoje as manchetes à crise humanitária dos clandestinos em Lampedusa, a notícia sobre o pedido externo de ajuda de Portugal é referido no Corriere della Sera que fala que a crise e a dívida empurram o país a pedir ajuda à União Europeia, referindo o anúncio feito por José Sócrates ontem e lembrando que é o terceiro, depois da Grécia e Irlanda a fazê-lo.
O La Stampa fala de uma Europa pronta a salvar Portugal depois da baixa do rating de sete bancos pela Moodys, citando Teixeira dos Santos, ministro das Finanças demissionário, em entrevista ao Jornal de Negócios.
Na Irlanda, segundo país a pedir ajuda externa, o diário Independent refere também o pedido ontem anunciado de Portugal, lembrando que é o terceiro país. E cita a declaração ontem ao país de Sócrates na televisão nacional dirigida ao país de 10,6 milhões de habitantes.
E o Irish Times escreve que o pedido de ajuda ao FMI pode chegar aos 75 mil milhões, depois do colapso do Governo socialista e da rejeição do quarto pacote de medidas de austeridade em menos de um ano.
O pedido de assistência financeira por parte de Portugal é também notícia na imprensa grega, apesar de o destaque ser dado aos problemas nacionais e à discussão sobre a eventual reestruturação da dívida grega.
O diário Ta Nea refere na primeira página que, após Grécia e Irlanda, esta foi a vez de Portugal cair nos braços da “troika” (UE, Banco Central Europeu e FMI).
“Este desenvolvimento cria ainda maior pressão para os líderes da zona euro concordarem num pacote final para resolver os problemas europeus”, decisão que estava adiada para junho, vinca.
A taxa de juro dependerá de quando o sistema de apoio financeiro europeu emitir o empréstimo, noticia o diário Kathirimi, com base numa fonte anónima da União Europeia.
Mas tudo aponta, acrescenta, para que o resgate seja composto por dois terços de fundos da UE e um terço do Fundo Monetário Internacional.
No jornal To Vima fala-se numa sensação de “alívio” da parte Comissão Europeia, dando conta de estimativas para o plano de resgate de cerca de 80 mil milhões de euros.
Já nos jornais norte-americanos, o New York Times refere, no fundo da primeira página, que o governo de gestão português cedeu à pressão dos mercados e juntou-se à Irlanda e Grécia no pedido de ajuda externa, depois de ser forçado a pagar juros cada vez mais altos pelos empréstimos contraídos.
O Washington Post lembra também que Portugal é o terceiro país da Europa a pedir ajuda externa para combater a dívida pública, a fraca prestação dos bancos e o crescimento lento.
Notícia actualizada às 9h18


